terça-feira, 19 de junho de 2007

Trafégo e Revolta


“E o verbo se fez carne e habitou entre nós”
mas carne? Onde reina a penúria?
o verbo se fez pele e osso
o verbo era a fome
a fome habitou entre nós
ocupou as metrópoles, os discursos hipócritas
e ganhou as ruas!
Refletida no meu retrovisor
desfila soberana entre os carros
fede, como fede a miséria
e como fede essa gente!
Acelero, acelero em vão, sinal fechado
meus olhos fechados
poupam meu peito, meu dia
desta realidade que não me pertence
A realidade, tal e qual a escuridão
Enche-nos de assombro no primeiro instante
Perturba, repugna, mas logo que a vista se acostuma
O que antes revoltava torna-se paisagem.
“Bem-aventurados os que tem fome!”
Palavras de um homem que morreu tendo sede
E esse maldito sinal que não abre
A fome emporcalha meu pára-brisa
com água, sabão, com lágrimas
intima pelo vidro seu preço
inútil contestar, a fome tem pressa
e esse rodo é uma arma
– Acabaram-se os miolos, afastem-se mortos vivos!
– Deixe-me com minhas lástimas que também não são poucas!
Sem argumentos, piso fundo e atropelo a escória
e com ela, a omissão de um povo.
Animais matam pelo seu alimento, é uma lei natural
e há tempos não estou no topo da cadeia alimentar
A morte mandou lembranças!
Covarde! Mandou crianças
que não ouvem o ronco dos carros
porque o de suas barrigas soa mais alto
barrigas colossais, tal e qual as grávidas
como quem empanturrou-se no almoço
antes fosse e não seria fome
mas são apenas vermes...
pobres vermes sem esperança
cujo sangue ainda escorre entre as rodas do meu carro.

4 comentários:

Paulo Cezar Filho disse...

penso que textos como esse dispensam comentários - pois o próprio texto tudo incute, tudo inclui, tudo abarca - grandes textos esses que nôs deixam sem palavras e eu besta, ainda venho aqui e escrevo, escrevo, escrevo - um inútil comentário.

Rafael Mafra disse...

Malditos humanos. Contestação!

Alessandro disse...

Eu queria dizer alguma coisa... mas dizer o quê?

Texto-chute-na-boca-do-estômago...

Beijo, Mhel!

Paulo Cezar Filho disse...

é verdade. deixa meio sem assunto.


será que chove hoje?