terça-feira, 23 de setembro de 2008

Impreciso.


1 - Causa com ele, destrói; destrói primeiro o fígado dele.

2 - Mas o fígado não adianta, reconstrói-se fácil, viverá para sempre.

1 - Sim, mas não o mates tão cedo também.

2 - Não, viverá apenas o suficiente.

1 - O suficiente para quê?

2 - Para o necessário.

1 - Então deixa-o necessitado, impeça o que lhe for preciso.

2 - É matéria imprecisa, sei do que necessito, mas não calculo as contas do que possa lhe faltar.

1 - Ordena que o diga.

2 - Não dirá.

1 - Então arranca-lhe a língua.

2 - Assim não gritará a clemência.

1 - É de clemência que necessitas?

2 - Eu?

1 - Óbvio que é de tu que falo.

2 - Com a clemência esconder-me-á o que necessita.

1 - Então tira-lhe a demência, pois a consciência é mais honesta, concisa e, principalmente, necessitada.

2 - Tão honesta e concisa que contar-me-ia facilmente que carece, mais do que tudo, da própria demência.

1 - Então é isto, tira-lhe a demência, se saber de sua maior carência é o que desejas.

2 - Mas não desejo tratar de uma simples e pura consciência.

1 - Então, o que desejas?

2 - O suficiente.

1 - O suficiente que ele possa lhe dar, ou que tu possas querer dele?

2 - É impreciso.

1 - E o que é preciso?

2 - O equilíbrio.

1 - É coisa impossível em tal situação.

2 - Impossível?

1 - Sim, se é assim que queres, solte-lhe as amarras e a mordaça.

2 - Mas, desta forma, estaríamos em iguais condições, e vulnerável eu também às denúncias alheias.

1 - Se o que queres é o equilíbrio...

2 - È coisa impossível.

1 - Cala-lhe as denúncias!

2 - Não posso.

1 - Podes, é fácil.

2 - Não quero.

1 - O que queres, precisas?

2 - Sou impreciso.

1 - Então arranca-lhe as mãos e os pés, começando pelos dedos, e vais descobrindo aos poucos o que necessitas.

2 - E se depois dos dedos e dos pés e das mãos ainda não soubesse?

1 - Arrancar-lhe-ia os braços e as pernas.

2 - E se depois das pernas e dos braços ainda não soubesse?

1 - Sobrar-lhe-iam os dentes, as orelhas, os olhos e as narinas, uma coisa de cada vez.

2 - E se, depois de tudo isso, ainda assim não souber?

1 - Extraia-lhe cada órgão interno, um por um, até o coração.

2 - O coração eu não poderia.

1 - E por quê?

2 - É do que um homem é feito: coração, consciência e demência.

1 - Um homem já não é mais homem se tiver as mãos atadas e a boca amordaçada.

2 - Um homem será sempre um homem enquanto ainda for demência, consciência e coração juntos.

1 - Então terás o mesmo que agora tens, a diferença é que sem mãos para atar, sem boca para amordaçar e sem órgãos para estripar.

2 - Exatamente o que preciso.

1 - Precisas?

2 - Calculo, não sei se é preciso o cálculo.

1 - Estás em dúvidas?

2 - Talvez.

1 - Duvidas?

2 - Sei que estou.

1 - Então chegaste à mesma conclusão de sempre?

2 - Sim.

1 - Novamente?

2 - Não tenho como escapar, estou atado e amordaçado.

1 - E só depois de tanto tempo percebeste?

2 - Como sempre.

1 - E agora?

2 - Peço que solte-me destas amarras.

1 - Também estavas livre o tempo todo, mas não ousaste acreditar.

2 - Se estava preso e ao mesmo tempo estava livre, confundo-me entre empate, derrota e vitória neste embate, qual título nos é de direito?

1 - Como sempre dizes, é impreciso; talvez saibam aqueles três que estão atrás do espelho.

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Ofício



Não é que tivesse nascido, inato, ali, assim, dentro e atuante como um coração ou um rim ou um futuro câncer. Também não foi caso adquirido, assim como acontece com certas doenças, na troca de ares, sangue ou líquidos corporais. Foi contágio, sim, mas de outro tipo. Aparentemente quieta, lentamente, gradual, foi quase imperceptível a adicção. Pode-se chamar de contágio social. Na prática, nem é considerado contágio. Chamam de dom ou dizem que tal pessoa “nasceu pra isso ou pra aquilo”. É até comemorado e respeitado.

Desviando um pouco do assunto, é engraçado como essa coisa acontece quando se trata de pensarmos sobre a morte. Ela sim é que seria algum tido de “dom”, porque domina, é inata, programada, desde sempre, em qualquer tempo, para todos. Mas é tratada como surpresa, como um triste imprevisto. E, pelo contrário, é chorada e não querida. Mas isso são outros papos...

Nasce um ser humano, uma unidade. Pequena criança e já carrega consigo grandes esperanças, esperanças pequenas, futuras frustradas esperanças, sem saber; sem nem sequer ter a capacidade de saber de algo. Antes mesmo de fazer funcionar, ou – para outros teóricos – adquirir suas ferramentas de linguagem, já impõem-lhe uma missão: ser feliz, ter sucesso, e sinônimos do tipo. E, para cumprir sua missão, aquela criança, pequena criatura desejando morrer no conforto do leite materno, nem imagina que terá de enfrentar incoerentes lições e exercícios de uma cartilha duvidosa. A cartilha da vida. Sim, claro! Pois que a felicidade e o sucesso requeridos em sua missão não são quaisquer uns. São pré-conceituados, padronizados; abrangem um minúsculo ângulo de um círculo de possibilidades que existem apenas pelo fato de se respirar; e se formam de requisitos que excluem e classificam todo o restante, tudo aquilo que sobrou, como fracasso ou frustração.

É óbvio que essa cartilha não se encontra em qualquer lugar. Aliás, na verdade, ela nunca nem mesmo foi escrita, muito menos impressa em folhas de papel para se ler, apesar de muitas e tantas tentativas. Dizem que ela se inscreve, se imprime no coração e na mente à medida e simultaneamente em que se vive a própria vida. Dizem isso, mas nem sempre se importam em considerar que é um argumento barato; nunca assumem que não têm tanta certeza sobre isso e sempre se esquecem de perceber que a cartilha existe, sim, mas é outra, que não é lida e nem dita, mas ditada num silêncio de mudez desde a fecundação da primeira idéia de felicidade ou sucesso que sempre se quer impor às vidas alheias.

Seguimos a cartilha, sem querer, sem nem sequer ter a propriedade de querer algo, e vamos nos convencendo que temos de respeitar, senão seremos mal-criados; que temos de ser inteligentes, senão seremos pobres; que temos de estudar para ficarmos ricos, senão seremos burros; que temos de ser isso e aquilo, senão seremos alguma coisa muito ruim. E vamos aprendendo a cartilha sem perceber, gradualmente.

Num dia nasce a criança, unidade, e no outro está ali, aquela coisa crescida, indivíduo, com mais que década de conceitos e anti-conceitos, de inteligências e ignorâncias; pra ser mais exato, ridiculamente formado e completo de coisas das quais gosta e também das quais não gosta. Ou seja, nada de mais, animais também, desses os quais chamamos irracionais e também de bestas, gostam e também não gostam de coisas.

Mas ainda é cedo, e só agora é que aquela criatura, que agora a chamamos de homem, genericamente, que tanto faz homem ou mulher; mas, continuando, só agora é que a figura está pronta para iniciar a busca de seus objetivos, que apesar de assim os chamarmos agora, continuam sendo aquela mesma missão, só que disfarçados numa outra palavra de viés mais adulto e urbano. Se esse homem quiser mesmo dar cabo a essa missão, ou atingir seus objetivos, então terá de continuar seguindo à risca os exercícios que lhe foram impostos. Agora ele deve completar ao menos um curso superior, que assim é chamado para lhe conferir maior grau de importância na tabela de importâncias às quais nos atentamos. E antes de ser o dito superior, o homem torna-se estagiário. E depois de formar-se, toma um bom emprego, requisito essencial da cartilha. Depois de alguns anos de excelentes dedicação e renúncias, ele começa a vislumbrar a possibilidade de ter sucesso e ser feliz. Porém, sendo conceitos tão impossíveis, que é isso o que mostram a história, a filosofia e a nossa própria vida, o sucesso e a felicidade já estão simulados em bens de consumo e bens duráveis. Durante algum tempo, bastante tempo, esses bens bastam. Mas depois nosso homem começa a pensar em aposentar-se. E pensa, pensa, pensa algum tempo, ou melhor, bastante tempo. E depois percebe que aquela vida bem sucedida, pacífica e feliz ainda está longe, muito longe. E ele tenta esquecer disso, e vai esquecendo e esquecendo e esquecendo e esquece-se de vez. Não precisa mais lembrar. Já acorda automaticamente e chega ao trabalho sempre no horário. Dá as ordens certas no momento exato, pois agora é um superior. Tem roupas certas para o ofício e roupas certas para o descanso. O prazer está, se ainda é prazer, dentro dessas duas roupas. Atende o público e fala em voz alta, ninguém ousa contrariá-lo. Senta em sua mesa e assina papéis e mais papéis, decide a vida de outras pessoas que também seguiram ou estão começando a compreender a cartilha. Agora ele não é mais um ser ou criatura, criança homem e nem figura, talvez caricatura tornou-se. Tornou-se
Escrevente Autorizado de Tal Registro de Imóveis de Tal cidade. Atrás de seus óculos, de sua mesa e de sua curiosa máquina de perfurar datas em documentos, é a perfeita imagem de um Escrevente Autorizado, nasceu pra aquilo. Ninguém em sã consciência quereria serviço menos qualificado, nem creria em tamanha qualificação. Tornou-se agora uma peça, perfeita, em seu ofício; um parafuso, quem sabe até uma engrenagem, vital, que auxilia a funcionar a máquina da sociedade em que vivemos, e justifica a impressão daquele nosso manual, daquela cartilha.

Quanto à missão, que fique ali, quieta. Outras gerações haverão de cumprí-la.

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Soldado Esperança



Sou o primeiro soldado,
da primeira linha de frente,
para tudo estou preparado,
não há nada que eu não enfrente.

Sou o primeiro bastardo,
no meio de toda essa gente,
à vida estou condenado,
mesmo assim tão descrente.

Sou o primeiro palhaço,
com um largo olhar descontente,
acrobato no meu tablado
coreografias incoerentes.

Eis que prostituiu-se a esperança, e morreu de um vírus estranho à nossa incrível capacidade de consertar e entender todas as coisas.
Vendeu-se por um preço barato, quase nada, que é o valor que sempre estamos ansiosos em pagar.
Ela sorri na hora da morte, porque sabe que não é a última. Sabe que depois que se for, será tudo muito engraçado.
E morre cantando que é o último soldado...

E o que seremos depois que o soldado baixar?
Acostumamos a idéia de que há sempre algo por vir, na cabeça.
Esquecemos que nossa ordem foi: "Vá à guerra, proteja-me!"
E não percebemos o absurdo de gritar o impossível: "Levanta-te, soldado! Ressuscita-te, engana-me!"

Era a esperança.
O mais que putrefato, esqueleto que erguemos diante de nossas vistas sempre que levantamos, depois de cada queda.
A marionete que dissimulamos, perfeitamente manipulados.
"Ressuscita-te!", gritamos. E ela continua em sua condição de ossos.
E nós não aceitamos nada que não colírio em nossos olhos. Mesmo que seja veneno. Mesmo que seja placebo.

Canta que é o primeiro soldado.
Últimos generais que somos, continuamos com a guerra, quase que alheia, sentados, sonhando o estranho conceito que acreditamos – palavra de fontes seguras – ser a vitória.

Engana-me!, cantamos. E seguimos o ritmo de um ossário tilintar.

terça-feira, 24 de junho de 2008

Tudo bem (pensamentos soltos)



Está tudo bem. Pior para uns, para outros nem tanto. Mas está tudo bem, tudo andando na boa ordem.

As músicas, como sempre, continuam nos emocionando, enchem nossos corações vazios e embargam nossos olhos pela melodia, pela letra ou por aquele dia que nos lembra. Embora o trânsito ou a conversa alheia no ônibus ou a outra música do volume máximo do carro ao lado atrapalhem, nossa música mantém sua magia. Engavetamos o momento e o sentimento para mais tarde, compramos o cd ou ouvimos pela internet mesmo. As lágrimas, hoje em dia, já sabem esperar o intante certo de verterem.

Nossos bifes continuam sendo postos nos pratos, pois essa tal de fome é que ainda não aprendeu a esperar. Até as crianças pobres já aprenderam a arte da degustação tântrica, coladas nos vidros apetitosos das janelas de vidro de nossos restaurantes. Já estão de barrigas tantricamente cheias, por isso é que só esmolam para comprarem drogas.

As drogas sim, é que já não são as mesmas. É o preço que pagamos para conter a inflação. Apenas o preço das cervejas, cachaças e cigarros é que sobem, pois já estão legalmente inseridas nos jogos do mercado comercial.

Nossa saúde também continua na mesma, dá pra viver. E quando não dá, não dá.

A educação que sempre recebemos já basta para os objetivos que temos. É formada, geralmente, sem muitas exigências, dependendo da casta que se observe. Ter de sonhar e ter de saber que não podemos realizar os sonhos que nos impõem foi uma das melhores idéias de todas.

Mas nossa fé é exigente. Só lhe falta ser institucionalizada para poder cobrar os juros dos impostos atrasados.

A contribuição para a nossa segurança já é imposta. Mas não é seguro fiar-se nela. Às vezes atrasa. Ela, a segurança, não as contribuições. Os juros sempre são altos.

Tudo o que lemos ou vemos ou sabemos também cumpre seu papel: estar lido, estar visto ou estar sabido. Talvez nos falte alguma inteligência ou coragem para mais do que isso. Mas está tudo bem. Tudo seguindo na mais perfeita ordem. Pior para uns, para outros nem tanto.

terça-feira, 17 de junho de 2008

A ESTÓRIA DE BONNIE & CLYDE

Poema escrito por Bonnie Parker, parceira, comparsa e amante de Clyde Barrow nos anos 1930.
Para ser cantado no ritmo de Song to Woody de Bob Dylan, 1962.

(não se esqueça dos devidos créditos)
- para eles, é claro -

You've read the story of Jesse James
Of how he lived and died;
If you're still in need of something to read
Here's the story of Bonnie and Clyde.
Now Bonnie and Clyde are the Barrow gang
I'm sure you all have read
How they rob and steal and those who squeal
Are usually found dying or dead.
There's lots of untruths to these write-ups
They're not so ruthless as that
Their nature is raw, they hate the law
The stool pigeons, spotters, and rats.
They call them cold-blooded killers
They say they are heartless and mean
But I say this with pride that I once knew Clyde
When he was honest and upright and clean.
But the laws fooled around kept taking him down
And locking him up in a cell,
Till he said to me,"I'll never be free,
So I'll meet a few of them in hell."
The road was so dimly lighted;
There were no highway signs to guide, but they made up their minds
If all roads were blind,
They wouldn't give up till they died.
The road gets dimmer and dimmer;
Sometimes you can hardly see;
But it's fight, man to man and do all you can,
For they know they can never be free.
From heart-break some people have suffered
From weariness some people have died;
But take it all in all, our troubles are small
Till we get like Bonnie and Clyde.
If a policeman is killed in Dallas,
And they have no clue or guide;
If they can't find a fiend, they just wipe their slate clean
And hang it on Bonnie and Clyde.
There's two crimes committed in America
Not accredited to the Barrow mob;
They had no hand in the kidnap demand,
Nor the Kansas City Depot job.
A newsboy once said to his buddy:
"I wish old Clyde would get jumped;
In these awful hard times we'd make a few dimes
If five or six cops would get bumped."
The police haven't got the report yet,
But Clyde called me up today;
He said, "Don't start any fights, we aren't working nights
We're joining the NRA."
From Irving to West Dallas viaduct
Is known as the Great Divide,
Where the women are kin and the men are men,
And they won't "stool" on Bonnie and Clyde.
If they try to act like citizens
And rent them a nice little flat,
About the third night they're invited to fight
By a sub-gun's rat-tat-tat.
They don't think they're too smart or desperate,
They know that the law always wins;
They've been shot at before, but they do not ignore
That death is the wages of sin.
Some day they'll go down together;
They'll bury them side by side;
To few it'll be grief, to the law a relief
But it's death for Bonnie and Clyde.

sexta-feira, 13 de junho de 2008

UMA NOITE COM ÉVORA

A promoção era assim: quem ligasse para a rádio e dissesse o nome correto da música que acabara de tocar, teria o privilégio de passar uma noite com Évora. E foi Lúcio Primeiro, filho de um executivo que trabalhava no ramo de cotonetes, que acertou o nome. A música era Sweet Home Sweetin´ de 1929, uma das primeiras gravações de Évora Lince.
Lúcio encontrou Évora as nove em ponto da noite seguinte, vestiu sua melhor calça e sua melhor camisa, usava o pulôver que tinha ganhado de sua mãe e os sapatos eram os mesmos que usara na ocasião da sua formatura, quarenta e nove anos atrás. Évora apareceu num vestido simples e um tamanco discreto e gasto. Lúcio reparou também que seus cabelos estavam empastados e brancos como neve, sua pele, envelhecida, em nada lembrava a Évora que conhecera nos anos 30.
- Ta legal, já apareci por aqui antes, agora que tal voltarmos para a nossa época? – disse Évora, para início de conversa.
- Olha só, é apenas uma máquina que estou desenvolvendo, algo que será revolucionário para o mundo! – Lúcio estava radiante, e jovem.
- Desenvolvendo? Essa é boa. Então quer dizer que estamos num tipo qualquer de teste idiota bem aqui nesse lugar engraçado, com essa gente decadente!
- Podemos voltar para 1940, se você quiser!
- É claro que quero, nesse minuto!
- Mas primeiro eu gostaria que você participasse da promoção da rádio, eu fui o ganhador, portanto tenho direito ao prêmio!
- Que prêmio?
- Passar uma noite com você!
- Ah, essa é boa!
- Sério, participei da promoção de uma rádio que encontrei nas freqüências da minha máquina, por isso estamos aqui em 1988!
- 1988?
- O ano da promoção!
- Ah, não, chega, aperta a porcaria desse botão ou sei lá qual dispositivo você tiver por ai, quero voltar agora para o meu quarto, para a minha cama, se não me engano estava dormindo quando você me trouxe para cá!
- Não, você não estava dormindo, você estava cantando!
- Que seja então, agora vamos, aperta essa porcaria logo!
- Tem certeza de que quer mesmo voltar? – Lúcio perguntou com uma ponta de tristeza na voz fraca.
- Absoluta!
E então ele apertou uma espécie de botão que acionava uma mola pequena no fundo de uma caixa prateada. Uma nevoa púrpura encobriu nossos dois personagens, que logo desapareceram de 1988.

De volta a 1940:

Évora Lince cantava num cabaré de Marselha, quando as tropas alemãs chegaram, músicos e platéia foram colocados para fora. Revistaram todos, somente Évora, que era judia, e um jovem que assistia a apresentação foram levados.
E na escuridão do vagão lotado, se entreolharam. Évora demonstrou surpresa.
- Ainda quer continuar em 1940? – Lúcio perguntou.
- Não! – Évora respondeu rispidamente, não escondendo o medo que sentia.
Então o rapaz imediatamente apertou o botão da sua caixa prateada e sumiram na névoa púrpura novamente.

E foi assim que Lúcio Primeiro salvou a vida de Évora Lince, a cantora luso-francesa.

O mais importante, para desfecho da história, é que passaram uma noite juntos num hotel decadente de Amsterdã em 9 de julho de 1988 com entradas fornecidas por uma rádio portuguesa e depois disso, nunca mais foram vistos.

segunda-feira, 9 de junho de 2008

SUBSOLO (Canções Curtas em Seis Tempos)

Allan Raez bebeu três xícaras de café. Olhou apreensivo para a garçonete que lavava pratos bem na sua frente.

Depois olhou para o caixa e se lembrou de que não tinha um centavo no bolso.

Seu Chevrolet 67 estava parado no estacionamento da lanchonete. No porta-malas o corpo de Maria, sua namorada. Ele havia perdido o controle na última noite e agora só pensava numa maneira de se livrar do corpo.

A garçonete foi até a cozinha, Allan fitou sua bunda. Maria também tinha uma daquelas, era capaz de deixar qualquer pároco de pau duro em questão de segundos. Existia muitas assim, o problema era quando resolviam abrir a boca.

Maria ameaçou chamar a polícia, caso Allan encostasse a mão nela. Ele não fez isso – encostou o cano frio da 22 na sua têmpora e disparou, duas vezes.

Jaime recebeu o aviso pelo rádio. Ligou a sirene e pisou fundo. Perto dali, um maluco tinha assaltado uma lanchonete. Dois funcionários mortos e o assassino em fuga num Chevrolet antigo, dirigindo com uma mão e apontando sua 22 para a cabeça de uma garçonete, com a outra.

sexta-feira, 6 de junho de 2008

OS BENEFÍCIOS DO CHÁ MATO

Apesar de toda informação que tem sido veiculada, principalmente de uns cinco anos pra cá, parece que a maioria das pessoas ainda não despertou para a realidade de que o chá, definitivamente, pode ser uma coisa bem louca, quero dizer algo extremamente positivo, de forma mental, social, espiritual e o escambau.
Acredito que se um número maior de pessoas passasse a fazer uso constante do chá, viveríamos então numa sociedade mais pacífica, criativa (como ninguém teve a idéia de incluir essa palavra na declaração dos direitos universais de todos os homens do mundo a partir do momento em que nascem?). Tiraríamos o pé do acelerador. Não há motivo para tanta pressa. Não é difícil observar as pessoas e se perguntar aonde todos vocês pensam que irão chegar? Num cemitério hollywoodiano com lápides limpas e discretas?
No começo da fila do supermercado? Num sofá bege, dentro duma sala bege? Divisórias, mesas e computadores? Não sejamos tão sérios assim. Essa seriedade toda só parece esconder uma infantilidade que permanece alheia (e aparentemente confortável) às coisas que fazem a diferença.
Falando de experiência pessoal, durante os últimos quinze anos, período em que alternei algumas fazes de tomar o chá diariamente com outras épocas mais tranqüilas (ou menos tranqüilas – claro), adquiri uma percepção bastante clara em relação às mascaras do convívio social boçal, sempre presente, em todos os lugares. Como não achar certa graça, por exemplo, na maneira como os caixas, especialmente os de banco e supermercado, com quem tenho maior contato, agem? E os seus gerentes e supervisores? Todos igualmente programados, nulos, sem criatividade alguma. Converso com vendedores, mecânicos, advogados, publicitários, médicos, pastores, porque será que estão todos mentindo? Mentem para si mesmos e para os outros. No fundo é tudo teatro. A prestação do carro, da casa, o som mais novo de todos, o aparelho mais moderno do mercado, o último equipamento lançado, novidades tecnológicas de calçar e vestir, baterias e liquidificadores com mil e cinqüenta funções diferentes, todos esses objetos / objetivos de vida estão presentes, na verdade só existem eles, a sociabilidade séria e respeitosa é uma fantasia que vestimos todos os dias quando o relógio desperta nossas mentes inquietas e tão acostumadas com a turbulência moderna. Aceleramos nossos carros, com nossas mentes munidas de café e álcool e continuamos varrendo o debate sobre o chá para debaixo do tapete. Ninguém tem muito tempo.
O chá só faz aumentar a percepção do equívoco no qual nos encontramos, da bestialidade de certas ações corriqueiras, da estupidez da pressa excessiva, da subserviência cega, de caminhar muito aquém da serenidade e loucuras necessárias para que ideologias vazias não contaminem nossa mente e nosso corpo.
Algumas pessoas ficam em dúvida sobre os possíveis malefícios que o uso contínuo do chá pode provocar a longo e médio prazo, geralmente são soldados de políticos e religiosos, estão sempre atentos, não podem vacilar um minuto ou serão engolidos ou despedidos ou punidos ou simplesmente descartados, entendo seus questionamentos, embora seja estranho que continuem levando vidas cheias de vícios perigosos e parecem nada fazer ou nada enxergar a respeito.
Espero que os próximos debates sejam mais abrangentes e que as pessoas estejam com suas cabeças cortadas e expostas nas calçadas.
É muito mais fácil o velho truque do controle-remoto, da bíblia e da cerveja. Tá tudo ai, basta estender a mão ou estalar os dedos. O difícil será conseguir manter esse apego à velocidade e esse medo da mudança, depois de termos feito a conversão do concreto para a terra, do papel para a fumaça. Não existe conexão nenhuma entre o chá e um automóvel, por exemplo, e isso é só uma das milhares de coisas que você irá descobrir, enquanto navegar tranqüilo pelos rios coloridos da sua mente.

quinta-feira, 8 de maio de 2008

ISABELLA É UMA ILHA

Coloquem as crianças em cima dos muros, estourem pipocas e champanhe, pintem as ruas, as unhas, linguas pontiagudas e cotovelos acoplados em poltronas acima de qualquer suspeita e não se esqueçam das bandeirinhas verdeamarelas penduradas, tremulando ao vento - comemoraremos como uma copa do mundo a prisão do suposto casal assassino.

E dentro de uma sala lúcida (talvez) alguém assista o nosso espetáculo (o espetáculo dos meios de comunicação e sua massa disforme embora sob controle) os nossos urros de vitória, gritos no improviso, nossos sorrisos rotos, tortos, mortos - porque no canto da cozinha, bem agora, o calendário de Jesus Cristo dos nossos domingos passados fora trocado por um novo, cuja criança crucificada (conhecida por todos) gera muito mais capital.

sexta-feira, 2 de maio de 2008

Do fundo.



Encontrei o fim, o fundo do poço, como dizem por aí. Não vale nada, neste momento, tudo o que conquistei com árdua luta. Entreguei-me completamente a batalhas que não enxergava, sem perceber que não carregava arma alguma. Estava no pelotão de frente, servindo de escudo às marteladas diárias que, na verdade, não estavam endereçadas ao meu coração. Submisso a todas as dores, anestesiava-me com a percepção fechada e minha voz respondia muda àquilo que eu imaginava ser uma desgraça inevitável.

Todos sofremos e reclamar é luxo, é falta de fibra, é atitude de fracos. Sempre aceitei essa idéia sem questionar. Qual direito eu teria? Deveria, sim, era agradecer, pois era um felizardo e estava tão distante de tantas misérias piores que a minha. Era também um cidadão e cumpria exemplarmente meu dever para garantir o bem-estar social. Qualquer infelicidade minha seria injusta e inútil.

Mesmo assim meu coração queimava em meu peito todos os dias. Não era ódio, não era indignação, era um não-compreender-bem-o-que-se-passa; uma pedra que pesava cada vez mais um culpa incoerente, mas que eu também recepcionava sem procurar entendê-la. Tratava apenas de suportar meu fardo e seguir a trilha de volta para mais uma noite de merecido descanso.

Certa noite, esperando o ônibus, apareceu esse homem, que logo de cara pensei que fosse um lunático. Pediu um cigarro e eu disse que não tinha, que não fumava, a mais pura verdade. Ele então tirou um maço do bolso, um isqueiro prateado, acendeu um pra ele e me ofereceu outro. Disse que não, obrigado, que não fumava. Respondeu que eu deveria experimentar, que eu nunca teria nenhum tipo de verdadeira convicção nesta vida se continuasse a negar e rejeitar as coisas sem saber realmente o que eram. Argumentei que fazia mal pra saúde e ele acrescentou que dormir no ônibus àquelas horas também.

Aquilo me fez refletir um pouco e depois de algum tempo quieto ele voltou a falar pra contar uma história estranha. Perguntou se eu sabia porque ele ainda não havia morrido. Respondi que não, não sabia. Ele disse que era óbvio que não, a pergunta era brincadeira, pois ele já tinha morrido. Já tinha morrido? Sim, morri uma vez, alguns anos atrás. Claro que sim, percebe-se... É sério! E o que faz aqui então? É que eu voltei. Por que voltou? Bom, esse mundo pode até ser uma desgraça, mas tem algumas vantagens: pra resumir, nós podemos escolher a desgraça à qual nos entregamos e, uma coisa muito importante, no céu não tem cerveja e nem bebida alguma, no inferno o preço é alto e no purgatório ela é quente, light e sem álcool, então voltei.

Achei graça e ele, antes de se despedir e ir embora, recomendou que eu prestasse mais atenção nos céus e nas nuvens, pois deus está sempre pronto pra disparar suas carabinas e geralmente não nos dá tempo de cumprir aquelas promessas ou satisfazer aqueles desejos de sempre, e que nós sabemos disso inconscientemente e é por isso que matamos tanto tempo e cultivamos tanta pressa e tantas necessidades mais acessíveis aos nossos cartões de crédito, para não lembrarmos que nossas vidas nunca serão completas e nos iludirmos com a melhor satisfação que nosso salários puderem pagar.

Sozinho, no ônibus, durante os oitenta minutos que me distanciavam de casa, experimentei uma sensação de conforto por quase compreender aquele ardor no coração e não consegui dormir durante a viagem.

Era início de semana e aquela sensação se manteve durante os outros dias, mas a cada minuto que passava ela se transformava em desconforto; um desconforto cada vez mais forte.

No sábado, depois do expediente, a angústia era tão extrema que eu não sabia o que fazer. Não voltei pra casa, resolvi encarar um porre, o meu primeiro. Descobri o prazer de fumar. Lembrei de todas as pessoas que encarava dia após dia. Pessoas cansadas e enfermas nos ônibus-leito dos caminhos da morte em vida de todas as madrugadas; pessoas saudáveis e felizes com as bonificações e gratificações dos salários que garantiriam o pagamento das faturas de todos os cartões de crédito; pessoas como eu, que certamente carregavam um coração em chamas no peito. Pensei nos caminhos que pisávamos, constantes em direção, sentido e horário. Tentei imaginar em qual momento da vida acontecia a menor intensidade de nossa cegueira.

Não dormi, o cansaço não me atacou. Permaneci no mesmo ritmo durante o domingo e fui repreendido por todos que conheciam e estavam acostumados com minha rotina quieta e servil. Decidi então me isolar. Trancado no quarto, conversando com o cinema que o teto me apresentava, não pude resistir, o sono me alcançou.

Acordei no outro dia, cansado ainda, e automaticamente segui os atos marcados de todos os dias. Banho, café, elevador, bons dias, mas não dormi no ônibus. Toda a viagem auto-denunciando minha fraqueza; que quando finalmente identifico a razão daquela inquietude, percebo que não tenho forças e nem coragens de assumí-la, de levá-la adiante.

Caminhando novamente o mesmo roteiro de sempre, aceito que encontrei o fim, o fundo do poço, como dizem por aí. Fraco, submeto-me à minha incapacidade de fugir. Meus passos seguem o horário, a direção e o sentido rotineiros de sempre.

São sete e quarenta e oito da manhã, segunda-feira, e engulo o gole seco do nó da garganta que me garante que, apesar de tudo, essa vida continuará sendo o que sempre foi.

quarta-feira, 30 de abril de 2008

Da fenda.



Encontrei uma brecha, uma fenda. Ficava esquecida no alto de um edifício; capricho estilístico de algum arquiteto que já deveria ter morrido há algumas décadas. Sorte dele.

Não foi muito difícil subir até lá da primeira vez. Estava totalmente suja, como era de se esperar, cheia de corpos, de sons e de sujeiras desses ratos voadores que apelidamos de pombas. Voltei na segunda noite com veneno e uma tela de arame. Primeiro fechei a abertura, depois espalhei o veneno. O efeito seria completo em vinte minutos, mas decidi voltar na noite seguinte. Um dia inteiro seria suficiente para que as outras aves entendessem o recado.

O terceiro passo foi a limpeza. Gastei toda a madrugada nisso e tive de sair às pressas quando o sol ameaçava surgir por trás das cadeias de arranha-céus, para que nenhum olhar menos desatento flagrasse meu segredo.

A essa altura já possuía todo o suprimento que seria necessário durante os dias que passaria ali: bebidas, alimentos enlatados, munição e um fuzil de precisão.

Nunca entendi nada sobre armas. Sabia apenas que era necessário apontar no alvo e puxar o gatilho; e pensava que para isso havia de existir algum motivo. Dessa arma eu não sabia nem o nome. Escolhi nas fotos do catálogo de um traficante que procurei conhecer, a arma mais bonita e ameaçadora da relação. Relativamente leve, fácil de montar e surpreendentemente precisa, mesmo nas mãos de um inexperiente como eu. Gastei boa parte das minhas economias para comprá-la.

Pratiquei num sítio abandonado na periferia da metrópole. Acertava latas de cerveja e, às vezes, cabeças de galinhas e de cachorros, a mais de trezentos metros de distância. Isso no começo.

Foram mais duas noites para abastecer a fenda. Na terceira noite, depois de camuflar a tela de arame com um pano quase transparente, instalei-me no local. Esperei mais três dias antes de efetivamente dar início aos meus planos.

Três dias sem leitura, sem música, sem contato algum com nenhuma pessoa, mas com alguma reflexão.

Observava o vale urbano que se abria logo abaixo, cercado de edifícios comerciais; lojas, puteiros, igrejas. Observava toda a massa de pessoas que se movimentava por ali. Não pareciam formigas pela pequenez que transpareciam quando vistas de tão alto, mas sim pelos diversos caminhos que formavam na superfície do vale, quase como filas indianas, indo e voltando pelos mesmos caminhos com o andar cansado e inconsciente atrás de uma glória que nunca alcançariam. Uma glória que há muito tempo lhes havia sido prometida e nada mais. Algo no qual acreditavam por nunca terem ouvido falar e nem ousado fantasiar noutras opções mais relevantes ou, no mínimo, mais gratificantes. Arrastando nas solas calejadas dos pés, sem perceber, toda a dor da insatisfação e da frustração que ingenuamente carregavam nas costas.

Durante as noites os caminhos que ali se formavam não eram tão marcados. Percebia lá de cima a falta de preocupação daqueles insanos que passeavam. Como o silêncio era gigantesco nessas horas, quase que conseguia distinguir alguma melodia que vinha lá de baixo, direto das gargantas quase livres daqueles loucos. Era algo agradável, quase sempre, e logo na primeira noite decidi excluí-los de meus planos. Mas, mesmo assim, era perfeitamente perceptível o fato de que eles também buscavam alguma glória. A diferença deles para os diurnos era a maior variedade de glórias e a escassa unanimidade com relação a qualquer uma delas.

Foram quatro noites e três dias antes de qualquer coisa. As reservas de alimentos e bebidas estavam indo como o planejado. O único consumo que ultrapassou as contas foi o dos cigarros. Percebi que teria de economizá-los, duas ou três horas antes do primeiro disparo.

Sabia que não tinha nenhuma justificativa para o que ia fazer. E isso era a coisa que mais me aliviava e trazia alguma paz. Não ter, não necessitar justificativa alguma para o que quer que fosse; era isso o que buscava a anos e que confirmava ali.

Tudo o que tentamos justificar na vida, eu e aquelas formigas lá embaixo, é aquele peso que carregamos nas costas, sem perceber; é a desculpa para pisarmos todos os dias os mesmos caminhos incômodos aos quais nos entregamos; é a direção da maldita e utópica glorificação. Então me sentia muito bem por não ter justificativa alguma.

Nunca fui um bom estudante de biologia, muito menos de anatomia humana. Aliás, nunca fui muito bom em estudar ou aceitar o que a fôrma dos ensinos obrigatórios insistem em nos conformar. Apenas enganava o que era necessário para me deixarem em paz. Mas aprendi alguma coisa assistindo seriados de televisão e sabia alguma coisa, leigo, sobre onde acertar uma pessoa para matá-la rápido ou não. Eu queria que morressem, sim, mas que morressem devagar, pra que tivessem tempo de raciocinar alguma coisa antes do fim.

Sabia que era muito provável acertar algum inocente. E este era outro fator que também me aliviava. Claro que sim. Por que seriam tão coitados, se todos nós somos inocentes? E todos somos injustiçados e efetivamente mortos, ainda em vida, sem culpa alguma, igualmente. A culpa não está, nunca esteve em nós. Ela está sempre nos olhos daqueles que querem obrigá-la e nos corações daqueles que aceitam a piada da inocência. Então não me preocupei com nenhum inocente.

Sabia também que não mudaria nada com aquilo. Não queria e sabia que não podia mudar coisa alguma. Mas, se até então nunca tinha encontrado, por mais que procurasse, nada que mudasse ou justificasse coisa alguma, também não me preocupei com nada disso.

Eram sete e quarenta e oito da manhã, segunda-feira, disparei o primeiro tiro...

segunda-feira, 28 de abril de 2008

sábado, 5 de abril de 2008

Sarau no El Cafofo, dia 11

Nada menos que uma noite daquelas, não?

Beijos e abraços, pessoal!

sexta-feira, 28 de março de 2008

Sendo

Sendo

já fui o ladrão a galope de seu deserto

já fui o grito na rua
o desespero de não saber pra onde ir
e a solução encontrada no último gole do copo

já fui a distorção da guitarra que já não toca

já fui o oásis que se desfaz à sua frente
a dor de ninguém

e também a risada presa na garganta

já fui o coro das igrejas
a mão que segurou a sua quando temia andar
já fui os olhos que guiavam
e a noite que teimava em prosseguir sendo


já fui sonho e acordei realidade fútil
o tempo perdido nos faróis de uma metrópole
o papo sem moreira nem bezerra
e já fui silva e de paula e alessandro

e permaneço de alguma forma

na vida de quem quer:
um vagabundo, um joão bobo,

um falsário, sedutor virgem do vazio

carrego em mim algumas verdades

todas as ficções e contradições
as bugigangas incompreensíveis do inconsciente

algum ódio, muito amor e um tanto mais de... teimosia

o que mais posso ser? e o que mais posso ter?

É, isto é tudo por esta noite. Beijos e abraços prophanos, meu povo!

O retorno do poeta gordinho

Tô voltando pra casa, povo. Tô voltando! :-)

quinta-feira, 27 de março de 2008

"Diálogo N.º45872" e "O homem que bebia demais"


...
1 – Você acredita em quê, então?
2 – Ora, bolas! Está tudo aí, não há como negar. Tenho que acreditar em tudo, sou obrigado a isso.
1 – Mas no que você acredita realmente?
2 – No que eu acredito realmente?
1 – Isso, no que você põe fé?
2 – Em nada.
1 – Nada?
2 – Nada vale de nada.
1 – Então por que a arte?
2 – Porque nela encontramos a única possibilidade de fazer qualquer coisa, deixando claro de antemão que essa coisa pode não servir de nada, pode não ter sentido algum, mesmo que muitas vezes, na arte, abordemos de forma concisa e impressionante questões cruciais de nossa existência.
1 – E a arte vale alguma coisa mesmo quando não serve de nada?
2 – Nada serve de nada.
1 – E quanto ao cara que bebia demais?


O homem que bebia demais



Vamos lá. Antes de mais nada é preciso considerar algumas variáveis humanas e sociais e etc., envolvidas no assunto. Além de considerar, questioná-las, pois não buscamos aqui a construção de apenas mais outra paradigmática afirmação. Destas nós já estamos cheios.

Questionar, porque é preciso.

Quais são nossos valores e medidas e de onde vêm? Temos certeza de que são realmente nossos? Se tivermos certeza, será válido negarmos ou ignorarmos os valores e medidas de outrem? O senso-comum, o que é? De onde vem? Seria o senso-comum algo que justifica nossa moral ou que se aproxima da Verdade?

Ora, são questões iniciais pertinentes e relevantes em se tratando do assunto abordado.

São nossos valores que qualificam tudo o que está ao nosso redor, desde nossas preferências estéticas de quaisquer tipos até aquilo que consumimos. Nossas medidas quantificam tudo o que podemos ter, querer ou fazer, formando uma faixa “segura” que foge da escassez e do excesso. Encontramos aí o senso-comum, que glorifica nossa “faixa de segurança” quando a confronta com as escolhas correntes no meio social em que vivemos. E esse mesmo senso-comum é produto de uma força maior chamada moral, que muitas vezes é confundida com “A Verdade” (“A Verdade”, aqui em maiúscula, refere-se àquele conceito de “única possibilidade possível”, de “única certeza”). Portanto, é relevante que antes de mais nada consideremos e questionemos estes conceitos.

Não é raro – e é algo que não queremos permitir a este argumento – que todos esses conceitos sejam tidos/confundidos como entidades reais, concretas. Não podemos nos esquecer que são apenas abstrações.

Por exemplo, “A Verdade”. É uma idéia que circula por aí com o estigma de “única”, de imutável. Disparate ingênuo e equivocado, pois o que ocorre com “A Verdade” é o mesmo que acontece com o bom-gosto: todos pensam ter bom-gosto, mas todos os gostos são diferentes, às vezes absurdamente discrepantes. E qual será o melhor deles ou o verdadeiro? A resposta é simples: nenhum (e não consideramos necessário explicitar o porquê disso). Da mesma forma, cada um carrega sua própria verdade, mesmo que muitas vezes sejam parecidas. “A Verdade”, em maiúscula, não existe; às vezes queremos enxergá-la como única faceta desse diamante infinito-facetado a que chamamos de vida, mas não podemos, pois temos olhos e ouvidos e demais sentidos e discernimento e acreditar em tal absurdo seria negar tudo isso e assumirmos alguma forma vegetativa de existência. Qualquer pessoa que tenha algum mínimo relacionamento social – seja através de outras pessoas, televisões, jornais, revistas ou até de livros Agatha Christie – tem suficiente capacidade de perceber e entender que escolhemos nós mesmos a nossa própria verdade.

E nossa moral, que vem rebocada por algumas verdades amplamente aceitas e carrega consigo nosso senso-comum, será que é tão válida assim? Que ela existe e vige, não há como discordar, mas poderíamos pensá-la como um manual de auto-proteção, sendo o senso-comum, o bom-senso, suas ferramentas. Quem sabe se nossa moral não é apenas o resultado de milhares de anos de evolução de uma espécie que em algum momento percebeu que certas atitudes são boas para a própria segurança no convívio em sociedade, e outras tantas não? Algum tipo de não-mexer-em-casa-de-maribondo que, com o passar do tempo, tornou-se regra.

Nossa moral e nosso senso-comum parecem mais com uma pré-ferramenta que nos protegem de quebrarmos as regras do bom convívio social.

Primeira questão pontual: qual o custo x benefício da troca de nossa plena liberdade pela segurança do relacionamento social? É o único preço que podemos pagar?

Depois que pensamos no que é “A Verdade”, a moral e o senso-comum, poderemos dizer que realmente possuímos valores e medidas próprios? Ou enxergaremos que são conceitos hereditários, que estão em nossos genes sociais e que não pensamos nisso porque nos incomoda?

Nós, seres humanos, vivemos num universo que impede a plenitude. Os poucos que vivem bem e felizes só o conseguem pagando o preço de certa ignorância; os que vivem mal, porém felizes, também, de uma forma diferente; há os que seguem levando a vida na média geral, sem nenhum saldo positivo ou então frustrados; outros se consideram de mal a pior e apenas choram muito por isso; e até aí tudo bem.

Mas alguns, que ignoram se a moda vigente é estar bem ou mal com a vida; que, se possuem valores e medidas, carregam-nos apenas para a própria vida; esses são considerados loucos, inconseqüentes, estranhos, incapazes para o bom convívio social... “que tomem cuidado, pois exageram”.

Esses preferem apenas sugerir uma segunda questão pontual: uma hora de oxigênio ou quatro minutos de vida?

Portanto, se pensamos direito a respeito, permitamos que o cara beba em paz!

Momentum (in extremis, in fieri).


Parte II - Da conscência de um karma

Ele foi abrindo os olhos devagar. Dessa vez não tinha luz nenhuma. Estava num lugar pequeno, escuro, aconchegante e assustador. Não lembrava de nada, era como se nunca tivesse existido. Olhou em sua volta e viu apenas alguns resíduos de luz que pareciam entrar sorrateiramente pelas frestas que existiam em dois cantos daquele pequeno lugar. Parecia estar dentro de uma caixa. Abaixou a cabeça e fechou os olhos, tentando raciocinar. Quando fez isso sua cabeça foi bombardeada por flashes de lembranças que lhe fizeram tomar ciência do que estava acontecendo. De um instante para o outro ele teve uma incrível certeza de que passara toda a sua existência dentro daquela caixa. Teve certeza de que tudo aquilo que via em forma de lembrança não passava de ilusão. Pensava assim, pois se deu conta de que a sensação que sentia fortemente naquele instante esteve acompanhando-o desde o passado mais antigo do qual conseguia se lembrar. E era tudo muito esclarecedor. Pensando um pouco mais, ele entendeu que sempre soube o que era realmente, só não conseguia acreditar. Era torturante aceitar sua condição, por isso esquecia. Mas, logo que fazia isso, iniciava-se uma incessante batalha em busca de alguma recordação do que significava sua existência, em busca da verdade angustiante. Esquecer doía mais do que lembrar. Lembrar doía mais do que esquecer. Era um círculo frustrante, sempre. Mas ele estava brevemente satisfeito por lembrar-se de tudo. Ele entendeu que não passava de um simples "Momento". Sua existência consistia em nascer, abrir os olhos, ficar confuso dentro de uma prisão escura até criar consciência da razão pela qual existia, fazer sua parte nos planos da existência universal, angustiar-se e morrer para, depois de um ciclo do Universo, nascer novamente sob as mesmas condições. Ele era apenas um componente inconsciente do Tempo e do Destino e ajudava-os, involuntariamente, a formar e manter o passado, o presente e o futuro de tudo.

Quando estava preparado percebeu que tinha mãos e que aquela caixa tinha portas. Neste momento sentiu medo e uma vontade inexplicável de contrariar-se à vontade do Tempo e do Destino. Quis destruir toda uma eterna história já feita, contada e recontada. Quis a liberdade e surpreendeu-se por saber que era o único a desejá-la entre seus iguais. Surpreendeu-se mais ainda e frustou-se ao descobrir que sua rebelia já estava planejada desde sempre e que ele mesmo já tinha vivido isso infinitas vezes.

Agora sim, estava realmente preparado. E faria a sua parte na história do Universo num corpo de um homem. Seria uma experiência realizada pelo Tempo e Destino, que consistia em dar vida e livre arbítrio a um "Momento".


Continua...

NOITE ANTROPOPHANICA:


Porque poetar é preciso, viver...

O CAMINHO DE CONCEPCIÓN - V

O Gordo tinha uma irmã que volta e meia aparecia lá em casa na época em que eu ainda morava com os meus pais. Eu andava procurando um lugar para morar e ela sabia disso, por isso fomos um dia até a casa de uma tia do Serginho, a Thaís (acho que era esse o nome da irmã do Gordo, não lembro direito) havia comentado sobre uns quartinhos bem simpáticos pra alugar, e além do mais o lugar parecia bem tranqüilo, do tipo que eu andava procurando pra descansar um pouco, depois de três anos seguidos indo de um lado para o outro com o Serginho e o Gustavo, eu havia decidido de uma vez por todas, que Concepción não servia mais pra mim. Era uma tarde de quinta, se não me engano, fomos na Kombi do Gordo, um amontoado de latas caindo aos pedaços, descemos uma estradinha de terra, toda esburacada, a Thaís tava no volante e não parava de falar, éramos só nós dois naquele entardecer silencioso e nublado. Quando chegamos na tal casa que ela havia falado, um moleque pequeno, de uns seis anos no máximo, veio correndo abrir a porteira pra gente, a Thaís deu uma buzinada pra ele, tinha uma porção de galinhas e cachorros correndo por ali, a casa ficava logo em frente, e quando estacionamos o carro, a família inteira já tinha vindo nos receber, era um lugar bastante simples, de modo que eu me apaixonei por ele logo de cara. A casa principal era grande, com cômodos enormes, preenchidos por camas ou sofás, não havia aparelhos eletrônicos, nem fogão elétrico, então a dona da casa nos levou até os quartos separados, pareciam bem confortáveis e o melhor de tudo era que as janelas davam vista para o rio que passava a meio quilometro dali. O lugar todo era um deposito de areia, eles extraiam a areia do fundo do rio com uns canos engraçados e a areia ia acumulando atrás da casa principal formando uma verdadeira montanha que eu, a Thaís e o menino, a quem ela chamava por um apelido qualquer, tipo Soró – alguma coisa assim - decidimos desbravar. Lembro que escalamos aquela montanha de areia quando o sol já tinha se escondido em algum lugar adiante, o menino pulava e saltava de um lado para o outro, subindo e descendo a montanha, com uma cadelinha preta latindo e correndo, brincando junto com ele, ficamos assistindo aquilo por um tempão, a Thaís tava até meio chapada de alegria por mim, por eu ter gostado do quarto e tudo, ela tinha um coração imenso, e pena que nos vimos poucas vezes depois disso. Mas naquela tarde só existiam a montanha de areia quase engolindo a casinha que agora parecia bem pequena, lá embaixo, o rio passando do outro lado e as janelas dos quartinhos. Apontei para a última delas, aquele seria o meu reduto por tempo indeterminado, falei. E a Thaís deu uma risada comprida e gostosa quando o menino tropeçou e desceu escorregando e rindo pela montanha de areia e a cachorrinha com a metade das patas afundadas, latindo e abanando o rabo. Enxerguei a fumaça que saia da chaminé da cozinha, lá embaixo – Estão preparando o jantar – ela disse – sentíamos o cheiro do rio e da areia misturar-se com o cheiro do mato no vento que soprava nos nossos rostos, não tínhamos nada com que nos preocuparmos, pelo menos por agora.A Kombi detonada do Gordo embaixo de uma figueira, onde alguém tinha armado uma rede. Pensei sobre os lugares que eu havia rodado para chegar até ali. Sobre todas as estórias e etc e conclui que nada tinha sido ruim, e que todos os planos anteriores, mesmo quando deram terrivelmente errado, tinham, afinal de contas, me levado para aquela montanha de areia, e eu estava feliz por isso. Então tudo bem. Foi ai que ouvi a Thaís dar outra risada, era a tia do Serginho que apareceu no terreiro gesticulando para a gente que a janta tava pronta, e o garotinho continuava dando suas cambalhotas malucas na areia.

segunda-feira, 24 de março de 2008

Momentum (in extremis, in fieri).


Um conto antigo, já. Pra relembrar algumas coisas, em três partes.
***

Momentum (in extremis, in fieri).

Parte I - Introdução

O hospedeiro


Ele: Homem; 26 anos; solteiro; habitante solitário de um apartamento médio na região central de sua cidade; trabalhador bem remunerado.

Ele abriu os olhos e, vagarosamente, a luz que lhe atingia a retina foi tornando possível a identificação das coisas à sua volta. Via o teto de seu quarto e um pedaço do guarda-roupas. Fechou os olhos novamente, pois não queria acordar, era muito cedo. A imagem que se formou na parte interna de suas pálpebras era a mesma velha imagem que, durante toda a sua vida, vinha se estampando naquele lugar. Estava fora de foco e obscurecida pelo tempo ou pelo esquecimento. Podia ser a recordação de algum lugar pelo qual tinha passado há muitos anos ou durante toda a sua vida. A verdade era que ele via aquilo por tão pouco tempo, que não conseguia se lembrar o que era exatamente. Incomodado com isso decidiu não dormir mais. Levantou-se e foi fazer coisas do dia. Tomou café. Assistiu ao jornal da televisão. Sossegado, estava satisfeito com o início de suas férias. Mesmo assim resolveu colocar o trabalho em dia. Desligou a tv e tocou um cd novo que, pro seu espanto, tinha uma música muito familiar. Um Rock suave com elementos eletrônicos e uma batida descompassada mas gostosa. Era algo diferente, como se o compositor não tivesse dado ouvidos a nada mais além do sentimento. Nada de métrica ou harmonia estudadas em demasia. Nada disso, embora fosse algo muito inteligente. O fato era que os componentes sentimentais chamavam mais a atenção do que qualquer outra coisa naquela música. Trabalhou ao som daquele cd e depois descansou. Almoçou e resolveu dar um tempo. Começou a mexer nas suas caixas empoeiradas que ficavam em cima do guarda-roupas e debaixo da cama. Estava procurando pelo seu passado. Poderia passar dias ali, relembrando as coisas que importavam: seus estudos, sua adolescência, seus erros, seus acertos. As namoradas, as poesias, as teorias, as curtições, as culpas, as desculpas, as drogas, o futebol, os amigos, as drogas, a independência de tudo, as drogas... Ele quase se arrependeu de ter se lembrado delas, mas não chegou a isso. O que mais sentiu foi saudade. E deu risada pela falta de vergonha na cara. Pensou no fumo, nas bebidas e nos seus efeitos. Depois fixou seus pensamentos profundamente numa outra droga. Somente ele sabia como ela era, como usar e quais os efeitos. Somente ELE sabia. E, pensando um pouco mais, percebeu que tinha saudade apenas dela. Era algo sublime. Deixava-o num estado de percepção aguçada e estranhamente prazerosa, mas de uma forma diferente de qualquer outra. Suspirou de saudade e ficou com essa idéia na cabeça. Não por muito tempo, é claro. Quando deu por si já tinha revirado metade de suas tralhas em busca da momentaneamente necessária droga. Há anos que ele não usava, mas tinha alguma quantidade em casa. Quando olhou para aquilo em suas mãos, sentiu euforia e medo. Iria usar daquilo como só ele sabia e como nunca antes. Dois, três e mais alguns tragos e o efeito aparece. Fica tonto e percebe que não é a mesma viagem de antigamente. Consciência e equilíbrio em excesso. Precisava de mais. E outros tragos se foram. E ele mais feliz. E mais tonto. E mais trago. Até que viu que tinha alguma coisa errada. Não sabia exatamente o quê. De repente, um pico de consciência trazendo junto uma montanha de tontura e ele cai no chão. Nada! Era exatamente o que ele via e sentia, durante algum tempo indeterminado: horas, meses, anos...?

Continua...

segunda-feira, 17 de março de 2008

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O desprezo por certas e quantas atitudes dos seres humanos é algo que, neste momento, ao meu ver, não pode ser deixado de lado. O desprezo não pelo ser humano em si, que é lindo, mas pela força de vontade e determinação que ele tem em fugir de sua condição, das características que ele se orgulha em ostentar, mas que não pratica.

A individualidade, a consciência de si, da existência, definha-se a cada dia. Não existe mais o "eu", em troca de outro "eu" produzido, fabricado. O indivíduo, próprio e consciente, não existe mais; se é que algum dia existiu (e aqui surge um pensamento que pode liquidar todo este argumento... a se pensar).

O indivíduo, nestes tempos, existe apenas para reclamar justiça e, muitas vezes, apenas para reclamar somente, seja lá do que for.

Me pergunto: direito? Justiça? Num olhar frio, seco, penso que não passam de meras piadas. Direito a quê? Qual justiça? Ora, bolas! O direito que o gado tem ao pasto? A justiça que produz apenas vítimas?

Nos esquecemos da ordem natural deste mundo. Nos iludimos em regras e promessas que não fazem parte da nossa natureza.

É desprezível o negar-se a si sem saber; aceitar palavras de ordem sem perceber, sem nem sequer ouví-las.

Todos têm seu lugar neste mundo, e isso é confortável demais. Têm seu lugar no mercado de trabalho, ou pensam e acreditam que deveriam ter; têm direito à sua saúde, a não se contaminar; a dizer seus palavrões nos momentos em que dita a raiva, porque estão cansados. E quem dita o cansaço? Têm direito a seus direitos, conquistados com árdua luta, mas que, na verdade, são apenas rédeas. Quem é que enxerga? São rédeas conquistadas com o cumprimento das obrigações aceitas!

E, ainda assim, reclamam. Reclamam de tudo, ridículos humanos, quando deveriam ficar quietos. Como dizem por aí, quem está no fogo tem que arder. Mas não! Gostam de brincar, mas não sabem perder, de jeito nenhum. Isso porque aprenderam assim; que existem os de cima e os de baixo, e os que estão lá são melhores que os daqui. Aprenderam e aprendem assim e nunca se questionam.

São desprezíveis porque o mundo que vivem é (se é assim que gostam de chamá-lo) injusto, e se esquecem disso. E são desprezíveis porque apesar de tudo o aceitam, a este mundo injusto, e ainda reclamam. Reclamam porque acreditam na piada de que devem reclamar, mas nunca pensaram direito sobre isso. Ridículos e desprezíveis porque aceitam e ainda assim reclamam das conseqüências da própria decisão, como o fazem os suicídas.

De qualquer forma, apesar de tudo isso, não há como negar (e talvez esteja aí o maior erro de todos), continuam sendo lindos, humanos.

terça-feira, 11 de março de 2008

O PRESENTE IDEAL

Passavam das oito da noite quando o telefone tocou, era a Bruna do outro lado – Ta sabendo que hoje é aniversário da Mhel? – Não – não tava, mas o quê é que isso tinha? Eu tava em casa fodendo o teclado com os dedos, o Lucio Caolho do meu lado não parava de gritar e agitar aquela garrafa acima da cabeça – Você vai acabar derramando essa merda – avisei – Oi, não, é só o Lucio Caolho que resolveu aparecer por aqui, ta bêbado feito maluco e não para de berrar – Não tem jeito de dar uma despistada nele? – a Bruna definitivamente não ia com a cara do sujeito, se bem que, eu também não topava muito com ele, a nossa amizade era um complô interesseiro, um bêbado solitário e um lunático que só sabia falar asneiras – Não tem jeito. E além do mais ele acabou de me emprestar trinta contos – Trinta contos? – ela perguntou do outro lado como se não estivesse acreditando – Podemos comprar um bolo com essa grana – Merda – pensei e peguei as chaves e peguei o carro e sai puxando o Lucio Caolho pela manga da camisa até o outro lado da rua – Para onde vamos? – ele perguntou, limpando o nariz com as costas da mão – Vamos pra casa de uma amiga – Amiga? Que amiga? Ela é gostosa? – Se é – Solteira? – Solteiríssima – então mudei de assunto, porque conhecendo bem o Lucio Caolho como eu conhecia, tinha certeza de que ele iria ficar naquele papo durante uns dois dias no mínimo. Seguimos por ruazinhas de bairro, com sobradinhos pequenos, Thelonious Monk solava de vez em quando e o maluco no banco do passageiro continuava agitando aquela garrafa como se fosse algum tipo de hélice. As quinze para nove estávamos na porta da casa da Bruna, desci e toquei a campainha, o doido do Lucio foi até a buzina do carro, meteu a mão e ficou segurando, corri até lá e puxei ele pela camisa outra vez – Tira a mão dessa porra – gritei e então ele foi até o meio fio do outro lado e ficou sentado como se fosse um menininho emburrado, pelos meus cálculos ele devia ter no mínimo 55 anos, embora seu comportamento fosse de alguém com cinco ou seis anos, não passava de um idiota e talvez eu não estivesse muito longe disso. A Bruna enfim apareceu – O que foi aquele barulho todo? – referia-se à buzinada do Lucio – Ah, foi aquele aborto – Apontei para o Lucio, que continuava sentado no meio fio, levantou a cabeça num gesto tímido e voltou a abaixa-la entre os braços – Vamos lá Lúcio – A Bruna chamou – e então, depois de algum tempo, entramos os três no carro e seguimos até o centro da cidade onde a Mhel dividia o apartamento com uma velha neurótica colecionadora de plantas. – Vamos comprar um bolo? – a Bruna sugeriu – Acho que a Mhel ficaria mais feliz com um maço de cigarros – Uma torta – o Lucio Caolho gritou do banco traseiro – Pode ser – Podemos fazer como os palhaços fazem – eu disse – Como assim? – A Mhel vai abrir a porta e então tacamos a torta na cara dela – expliquei e o Lucio Caolho pareceu gostar da idéia, deu uma risada maluca como se estivesse rosnando – Ela é gostosa? – perguntou outra vez – Que tal se nós comprássemos laxante e colocássemos no bolo? – a Bruna e suas idéias de última hora – Depois íamos dar uma volta por aquelas ruas com aqueles barzinhos burgueses da Vila Olímpia – Mas se não me engano tem banheiros por lá – eu falei – e seguimos todo o trajeto, quase cruzando a cidade de uma ponta à outra tentando encontrar um presente ideal – Sabe que a idéia da torta não é de todo ruim – a Bruna falou quando eu dobrava a ultima esquina antes que finalmente entrássemos na rua onde a Mhel morava. E lá fomos nós até um supermercado 24 horas a procura da tal torta, deixamos o Lucio Caolho vigiando o carro, para o caso de algum rato gigante tentar ataca-lo – Ratos gigantes não existem, não existem, não existem, não existem – ele começou a gritar e a agitar a garrafa acima da cabeça outra vez, seu nariz escorria até o queixo, prometemos comprar uma outra garrafa de cachaça, de modo que ele se acalmou um pouco, entramos no supermercado, mas não encontramos nem sinal de torta, na falta de coisa melhor, um bolo de hortelã mal acabado, parecia bem apropriado para a ocasião. Voltamos com o bolo e a bebida do Lucio Caolho – Nada de ratos gigantes selvagens? – perguntei – Nadica de nada – respondeu estendendo aquela mão imunda para que eu lhe entregasse a garrafa – Você acha que a Mhel vai gostar do Lucio? – perguntei para a Bruna assim que liguei o motor outra vez – Ta maluco? Nem barba ele tem – Mas gosta de Chico Buarque – e com essa resposta a Bruna ficou pensativa por um tempo e o Lucio tava distraído emborcando seu novo brinquedinho no banco traseiro, viu quando viramos para trás e então chegou bem perto do meu ouvido direito – Ela é gostosa? – perguntou de novo – Já falei que é - Parei o carro bem em frente da entrada principal, a Bruna veio carregando o bolo com as duas mãos, era um bolo dos grandes – Será que conseguimos acertar bem na cara? – ela perguntou, antes que tocássemos a campainha – Sério que você ta afim? – eu não podia acreditar naquilo, era bom demais pra ser verdade – Sério – ela disse e então o Lucio soltou outro berro e uma vizinha abriu a porta e botou a cabeça pra fora, era uma velha – Olá vizinha, somos amigos da Bel e ela é bem gostosa e – puxei o Lucio para o lado – Cala essa boca maldita – nisso escutei um estrondo, alguém tinha acabado de abrir a porta na casa da Mhel e a Bruna jogou o bolo de hortelã na cara dessa pessoa e descobrimos que essa pessoa não era a Mhel, era a velha neurótica que morava com ela, e a velha correu atrás da gente com uma vassoura e o rosto coberto de bolo, saltamos os degraus até o térreo, o Lucio Caolho veio gritando e ao invés de entrarmos no carro, dobramos a esquina e despistamos a velha, devia ser tarde da noite porque a rua tava silenciosa e deserta, na outra extremidade, a luz de um bar semi-iluminado, fomos até lá, a Bruna ria e o Lucio Caolho agitava aquela outra garrafa no ar mais uma vez, pulando de um lado para o outro e dando encontrões em cada poste do caminho, só eu parecia não estar me divertindo muito. O bar no fim da rua era uma podreira, mesmo assim sentamos nuns bancos de madeira que ficavam junto do balcão, pedimos duas cervejas e três copos – Será que a Mhel tava em casa? – perguntei – Ela é gostosa? – Lucio Caolho e a sua fala da noite – Olha a Mhel ali – A Bruna disse apontado para uma mesa no fundo do bar, ao lado do banheiro, tava de costas para a gente conversando com um carinha de barba e cabelo comprido – Vamos atrapalhar? – achei melhor ficarmos por ali mais um pouco, nisso o Lucio tinha saído e parou sentado e emburrado como sempre, escondendo a cabeça entre os braços – Talvez nem seja a Mhel – Pode ser – a Bruna respondeu, antes de virar o primeiro copo num único gole como fazia às vezes quando as coisas não davam lá muito certo. Tanto faz, pode ser como não pode – tava escrito num anúncio de preservativo, perto dos maços de cigarro, no balcão, e ficamos todos nessa a noite inteira.

terça-feira, 4 de março de 2008

NOME AOS BOIS:

Da série: “Somos os títulos dos e-mails que escrevemos”, ou “Como postar alguma coisa quando as idéias simplesmente desaparecem”.

Sandei...
Paisagens lunares
Fridonéia
Logo mais tarde...
Pedido
Intro...
O primeiro e-mail do ano........
Conexão Ibaiti
Boa noite & dia
Com beijos relaxantes...
Tá Tum
Na velocidade certa....
Sobre Realejo Mágico...
Como um pôr-do-sol numa tarde de sábado.....
Com Bobby tocando.........só pra variar
Estilo Salgadinho........
Mergulho brunístico de cabeça nos livros mais loucos do mundo
Monólogo em frente ao computador.....
Bastidores de desfiles de moda.....
Velvet Underground
Pelos corredores da galeria........
Entre um Youtube e outro...
Enquanto a noite cai (absurda)....
Enquanto escrevemos um e-mail.....
Chat Blárgh.....
Dois esquecidos.....
Jazz Cibernético...
Uma cerveja antes....
Mais ou menos como nos filmes.........
Jazz, rush e trash.....
Gênia.
Aluga-se uma casa cheia de sonhos...
Sorte a minha (fogão d´água)
Bom dia!!!
Farmácia caseira.
4u2
Sobre a Lua Artificial e os Baldes Flutuantes...
Latidos & Suspiros
As coisas simples da vida.....
Previsões......
Planos culturais anormais......
Antes da Vila Nova Pedregulho
Como se fossem cerveja
Compra de CD´S
Assim & assado
Money.....
Na estratosfera brunística da vida
Coisas que te aqueçam
Legal pra caraleo
Umas pra usted......
Fotos
Pablito-mail
Com beijos de enroladinho......
Hey.
Beijos e brigadeiros......
The Crytters
Grandes queijos espelhados.....
Coisas boas, simples e honestas......
Bruna Gerundina Veiga
Publicação de livros
Compra-se ânimo......
Louca, longa e linda.....
Sobre Autosugestão (assim mesmo)
No meio é mais gostoso
Pagamento de boleto
Depto pessoal
Burrada realmente burra.....
La listra.....
Pizza de vinho
Férias na Índia
Dia dos malacabados
Antes da imensa bolsa de Bruna Veiga...
Roquenrou...
Nuvens no céu de sol ausente...
Uma carta.
Café de boteco...
Exposição
Caindo de tédio ao cair da tarde........
Poemas de tardezinha.
Legalizando a quinta.
Fotografias para pessoas nem um pouco fotogênicas.
Gélido e-mail....
Hippies & Cyborgues
Texto para Valeska...
Sem assunto???
Sapos também escrevem e-mails (às vezes).
Lindas quartas-feiras frias e nubladas
O primeiro e-mail a gente nunca esquece.....

sábado, 1 de março de 2008

BARRACÃO

Eu olho por inteiro, este teu vácuo profundo.
O teu teto de peneira, todo furado e imundo.
Tua parede de madeira, tão podre e sem jeito.
E me vejo torturada na poça de tua água.
Que marcou o meu peito como um esgoto de mágoa.
E olho pro teu quarto tão velho, em teias,
onde dormi sem sono limpando tuas sujeiras.
Onde sonhei em morrer e sangrar minhas veias.
Onde chorei sem pranto e jurei ao meu santo que veria alegria em todos os teus cantos.
Mas não pude.
Em meio a tanta tristeza que me despedaçava, que me enfurecia
Noite após noite,
dia após dia.
Eu limpava tuas fezes e limpava tua urina.
Sentindo o cheiro de algo que jazia.
E ouvia meus filhos pedindo comida
enquanto tu tiravas minha vida.

Ah! Barracão, barracão!
És tão pobre de corpo, és tão podre de alma
que a minha coberta era a terra de teu chão.
Mesmo com silêncio tentaste me enlouquecer.
Torturaste-me e me fizeste sofrer.
E eu sofri, mas não me entreguei.
E eu sangrei, mas não gritei.
Catei papel, mas não mendiguei.

Ah! Barracão, barracão!
Deus é justo e tu sofrerás também.
E não poderás gritar.
Não poderás chorar.
Morrerás tábua por tábua,
gota por gota.
Então ficarei te olhando, observando a tua morte.
Irei gargalhar e gargalhar.
E debruçada sobre o teu corpo eu chorarei pela última vez.
Não será pelo que me fizeste.
Não será pela minha saudade.
Chorarei sim,
pela tua desgraça.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

LADY GLADIATOR E A LUTA DO SÉCULO - TERCEIRA PARTE

As 10:45 da noite, um cara com roupa de juiz entrou no ringue onde a luta seria realizada, o público agitava-se cada vez mais e o clima de nervosismo pelo atraso da luta era evidente, no ringue, um mágico com roupa de caipira atirava cartas de baralho para cima e queimava-as com um maçarico. Aspargatas estava reunida com uma equipe de assessores no vestiário quando um repórter afeminado entrou anunciando a chegada de Lady Gladiator no estádio. Enquanto o tal juiz repetia suas palavras no palco para delírio das mais de cem mil pessoas presentes ao estádio, uma rede de pesca puxou o mágico para baixo – Obrigado por entreter-nos – disse-lhes três homens bem gordos visivelmente emocionados, com lágrimas nos olhos e uns trocados para o táxi de volta. Todas as luzes se apagaram quando teve inicio Assim Falou Zaratustra, e o logotipo do Canal 8 piscava na tela dos milhares de televisores sintonizados na luta – SESSENTA PONTOS! SESSENTA PONTOS! SESSENTA PONTOS! – anunciava o juiz de cima do ringue no momento exato em que Aspargatas iluminada por um facho de luz vermelha, vestida num roupão indígena e empunhando uma serra elétrica, dirigia-se até ele, enquanto o público aplaudia e gritava.

Do outro lado da cidade:
O repórter do Canal 15 desceu do helicóptero com uma corda, carregando uma mini-câmera de filmagem, tentava focar as vitimas do acidente do Canal 29 enquanto os editores de filmagem agitavam-se no estúdio para esconder o logotipo do concorrente. Na rua do hospital era possível escutar apenas o ruído incessante de unhas sendo lixadas, vindo diretamente da sala de recepção, enquanto o diretor e os dois ladrões vestidos de palhaço seguiam num furgão em alta velocidade até o antigo centro comercial onde um mágico vestido de caipira esperava por eles na última mesa de um bar decadente.

Na sala de parto:
A reunião da equipe de televisão do Canal 15 continuava, ainda com o carinha de paletó amarelo e gravata mostarda ao centro, gesticulando com uma prancheta e um pincel atômico, era alguma coisa sobre 10 passos para um super índice de audiência , quando um sujeito magro com óculos de lentes fundo de garrafa entrou contando que o acidente com o helicóptero do Canal 29, tinha sido um tremendo fiasco – Não há sangue, nem vitimas – ele disse, e todos pareceram bastante desanimados com a notícia – Peraí – um médico gritou do outro lado da sala – Acho que agora está nascendo – e então as câmeras foram religadas e novamente filmavam o nascimento do Bebê de Duas Cabeças, enquanto a repórter saía pela porta lateral para pegar um copo de café sem açúcar.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

SY



HÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁ!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

LADY GLADIATOR E A LUTA DO SÉCULO - SEGUNDA PARTE

LADY GLADIATOR AGAIN:

Lady Gladiator tinha largado os palhaços que correram até o final do corredor e então dobraram à direita – Essa não é a minha bílis, mas deve servir – ela disse enquanto revirava o vômito. Olhou para o relógio da recepção que marcava dez e quinze, a recepcionista estava de costas, paralisada com uma lixa de unha na mão olhando para a televisão enquanto o apresentador do canal 8 anunciava a luta de Lady Gladiator para logo mais: - Senhores e senhores, não percam a luta do século entre Lady Gladiator e Aspargatas, daqui a pouco vai começar o maior espetáculo transmitido ao vivo exclusivamente pelo nosso canal, o canal campeão, se eu fosse você não saía daí dessa sua poltrona suja pra nada e enquanto isso fiquem com um pouco do sensacional humor de Johnny B. God – Lady Gladiator meteu aquele monte de vômito em uma sacola plástica e saiu correndo pela mesma porta onde os dois ladrões vestidos de palhaço tinham saído segundos antes. Esses estavam agora parados num ponto de táxi e ela também parou por lá esperando, antes que qualquer carro se aproximasse, um dos palhaços, o de fones de ouvido, tirou de dentro do paletó uma torta enorme e jogou-a na cara do outro que ficou parado enquanto as câmeras do canal 29 filmavam tudo – Merda – Lady Gladiator falou e saiu correndo outra vez para a rua dos fundos do hospital antes que a rede de televisão concorrente pudesse captar uma imagem sua.

DE VOLTA PARA A SALA DE PARTO:

Depois de tirar toda a roupa e ver acesa a luz verde que indicava mais de 40 pontos no índice de audiência, a repórter agora simulava um coito com o feto que ela havia atirado contra a parede, minutos antes. Todas as câmeras estavam posicionadas para que as imagens geradas fossem as melhores possíveis. Então um carinha estranho, de paletó amarelo e gravata mostarda, entrou na sala aos berros: – Para tudo – ele falou, desconectando os fios das tomadas, então a repórter vestiu novamente sua roupa enquanto os médicos e enfermeiros continuavam trabalhando no parto lá atrás, uniram-se num semi-círculo, os três câmeras, dois iluminadores, a repórter e o diretor baixinho, ele então explicou para sua equipe como conquistar os tão desejados 60 pontos da audiência. Foram dez longos minutos de palestra enquanto as câmeras desligadas deixavam que o canal 15 transmitisse a queda de um helicóptero do canal 29.

DO LADO DE FORA DO HOSPITAL:

Aos dois palhaços, juntou-se também uma trupe inteira de malabaristas, contorcionistas e jogadores de futebol que faziam embaixadas com a língua, então o diretor chamou um dos palhaços de canto: – Conseguiu a bílis? – ele perguntou, olhando para os lados, certificando-se de que ninguém acompanhava a conversa dos dois. O palhaço então enfiou o dedo na garganta e vomitou no meio da rua, enquanto os guardas de trânsito desviavam os carros pela rua de trás. – Ta aí no meio dessa bagunça – o palhaço falou quando botou para fora tudo o que tinha engolido. O diretor ficou de joelhos e começou a revirar no vômito, gargalhou como se estivesse encenando, e talvez estivesse, quando enfim encontrou a bílis de Lady Gladiator no meio daquele monte de macarrão empastado.

sobre carnaval


é carnaval olerê
é carnaval olará
nossa poesia
tem que rimar

navegando em mares
nunca antes tão embriagados
tropeçando nos pilares
dos bons costumes literários
passando assim dum jeito
que a poeira até levanta
sem carregar no peito
nenhuma tola esperança

é carnaval aê aê
carnaval olá olá
escrever não é preciso
preciso, sim, é naufragar

mesmo em páginas vazias
sem nenhuma direção
mesmo sem alegrias
e até na solidão
seguindo a marcha rápida
atrás do trio energético
cerveja, cigarro, cóké parada
e sem deixar de ser poético

é carnaval, é triste fim
é carnaval olereorá
traz outra cerveja aqui pra mim
que tô de saco cheio
vai estourar

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Bombas.


2 - Veja bem, isso não passa de um distúrbio simples. Te recomendo um pouco menos de televisão. Principalmente os noticiários.

1 - Simples distúrbio? Aquilo foi um atentado!

2 - Senhor, nós já passamos por isso há quatro sessões. Já superamos essa fase, não se esqueça!

1 - Doutor! Que fase? As bombas, furtos, roubos, os juros, impostos, meus filhos têm aulas sobre hardwares e segurança pessoal no primário! No primário!!! Corrupção, a água vai acabar, o petróleo vai acabar meu Deus; as contas de casa, quase não dá pra pagar a academia da minha mulher, muito menos planejar alguma coisa boa nas férias de julho...

2 - Você tem férias em julho?

1 - Doutor!!! As enchentes, o clima, o superaquecimento global, a Amazônia vai acabar, está queimando inteira; agora tem até terremoto! Os aviões estão caindo, dólares nas cuecas e na bíblia, a bolsa de valores! É o fim, é o fim, o Apocalipse!

2 - Senhor, também já conversamos sobre as interpretações bíblicas.

1 - Disso eu sei! É só modo de dizer!

2 - Então o que você acha dos cavaleiros negros?

1 - São metáforas, tudo bem!

2 - Tudo bem. O que tanto te pertuba, Senhor?

1 - Tudo isso! Sabe a quanto tempo eu não faço sexo com a minha mulher? Sabe a quanto tempo?

2 - Ainda não conversamos sobre isso.

1 - Três meses e meio! Cento e doze dias, pra ser mais exato. Sabe o que isso faz com alguém?

2 - Sei.

1 - Sabe o que isso faz com alguém como eu?

2 - Isso tudo por conta das bombas?

1 - Doutor, primeiro foram as crianças. Elas nasceram e cresceram... e eu as amo, de verdade! Mas quando isso começou, parece que nós envelhecemos. Eram quatro noites por semana, no mínimo, isso quando a gente tava cansado! Sabe o que é isso?

2 - Não.

1 - Depois que o primeiro nasceu, a coisa toda cessou! Não que eu ache que minha mulher tivesse que estar à disposição a qualquer hora, pelo contrário. Acompanhei e compreendi tudo o que aconteceu. Pelo contrário mesmo! De repente era eu que não tinha mais disposição pra nada! E piorou quando veio a segunda!

2 - Você culpa as crianças por isso?

1 - Por isso não.

2 - Então por que isso te frustra tanto? Por que recorrer ao nascimento dos seus filhos pra explicar isso que você está sentindo.

1 - Não estou explicando... é que agora acontece de novo. Só dei um exemplo.

2 - Então o que te incomoda, pode falar, estamos aqui justamente pra isso, não se esqueça.

1 - Bombas! Destruição, a insegurança! Essa gente pobre se sente no direito de incomodar nossas vidas. Estamos aí, trabalhando, ralando pra cacete e a gente não pode nem almoçar em paz ou tomar uma cerveja, apenas uma cerveja num bar que eles atacam esse terrorismo inconsequente e injustificado pra cima da gente!

2 - O teu problema é com lugares abertos, é isso?

1 - Geralmente acontece ali.

2 - Então, te recomendo, além de deixar de assistir aos noticiários da televisão, que o senhor também pare de frequentar lugares abertos. O senhor tem condições de frequentar lugares que impedem esse tipo de incômodo por parte das gentes pobres, e tomar sua cerveja em paz.

1 - Sim, eu tenho, mas não adianta.

2 - Por que acha que não?

1 - Meus filhos.

2 - Senhor, o senhor disse que o problema não é com eles.

1 - E não é! Mas eles estudam nessa escola moderninha que minha mulher escolheu e me convenceu, e lá, além das aulas de hardware e segurança pessoal eles têm atividades sociais de trabalho em conjunto em bairros pobres da cidade, uma vez por semana.

2 - E o senhor não gosta disso?

1 - É claro que não! O mundo como está e eu tentando me proteger o máximo que posso... Eu mando blindar meu carro pra levar e largar meus filhos nesse lugares miseráveis!? Isso não faz sentido!

2 - O senhor não acha que isso pode ser uma boa experiência para eles?

1 - Claro que seria, se eu estivesse do lado deles pra ensinar as coisas direito, mas eu não tenho tempo, tem esse monte de coisa que tenho que pagar, a natação, a tv grande, os computadores, o outro carro e a blindagem, a sua consulta...

2 - Senhor, mantendo o foco, o senhor não gosta que seus filhos frequentem esses lugares?

1 - Claro que não! Eles têm más influências por lá!

2 - Que tipo de mal influência, o senhor saberia me dizer?

1 - As bombas! As bombas! Já cansei de dizer!!! As bombas!

2 - Veja bem, senhor Senhor, já tem três minutos que esta consulta terminou. Pra fechar gostaria de lembrar-lhe que são apenas crianças, e aquela era uma festa de fim de ano, senhor.

A reflexão cotidiana. Sim, reflete. Disso não há dúvida.

É que às vezes são as palavras que fogem, incrível!

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

LADY GLADIATOR E A LUTA DO SÉCULO - PRIMEIRA PARTE

- Devolvam a minha bílis, seus escrotos – ela falou, com aquele tom gutural característico de quem não estava brincando. E ela de fato falava muito sério, como quem queria de qualquer maneira a sua bílis de volta. Encostou os dois ladrões com roupas de palhaço na parede, segurava-os agora pelo pescoço. Estavam num corredor vazio do hospital bem ao lado da cozinha. Dois policiais passaram correndo, empurrando uma maca com um médico visivelmente emocionado depois de ter assistido o ultimo capitulo da novela, portanto, sem condições mínimas de realizar o parto do Incrível Bebê de Duas Cabeças. Passaram correndo, empurrando aquela maca enferrujada, cujas rodinhas faziam um barulho chato que se espalhava por todo o prédio. A paciente do quarto 172 abriu a porta do quarto e botou a cabeça pra fora: - Parem com esse barulho dos infernos, seus fascistas de merda – bateu a porta com força. Essa era meio doida. Viciada em programas de auditório e com sérios problemas oculares, teve a televisão trocada por um aquário e já faziam dois anos que não notara a diferença.

VOLTEMOS NOSSA ATENÇÃO PARA LADY GLADIATOR E OS DOIS LADRÕES FANTASIADOS DE PALHAÇOS:

- Devolvam a minha bílis, seus escrotos – ela repetia enquanto apertava-os contra a parede. Lady Gladiator era tricampeã intercontinental de vale-tudo-mesmo, uma variação um pouco mais radical do vale-tudo, pois no vale-tudo-mesmo os lutadores podiam portar facas, espadas, machados, martelos, serrotes, armas de fogo e granada. As lutas de Lady Gladiator eram televisionadas pelo canal 8 e quando atingiam (e sempre atingiam) 50 pontos de audiência, então Lady Gladiator parava de lutar, largava sua oponente desfalecida em algum lugar do estúdio, dirigia-se para uma das câmeras que focava o seu rosto e sua fala vendendo um novo tipo de leite ou protetor solar. - Devolvam a minha bílis – ela falou pela nonagésima vez e um dos palhaços vomitou a bílis no corredor do hospital enquanto o outro ajeitava novamente seus fones de ouvido.

A SALA DE PARTOS E A TRASMISSÃO AO VIVO DO NASCIMENTO DO BEBÊ DE DUAS CABEÇAS:

A repórter olhava atentamente para um grupo de médicos e enfermeiros reunidos em volta de uma mesa de cirurgia. Três câmeras do canal 15 posicionavam-se logo atrás deles tentando obter as melhores imagens possíveis – Boa noite – ela disse, assim que as luzes vermelhas se apagaram – Bem vindos ao show. E então uma música introdutória deu inicio ao programa de maior audiência do canal 15. A introdução era feita com colagens de mulheres seminuas de papelão dentro de um lago artificialmente criado num dos estúdios da Amalgama, uma produtora de filmes pornô caseiros, famosa pelos atores incomuns que usava em suas filmagens. Todas as câmeras filmavam os médicos e enfermeiros, vestidos com roupas de diferentes tons verdes. A repórter estava sentada em uma cadeira de rodas, brincava com um feto no instante exato em que uma luz azul acendeu no fundo, pulou de imediato, atirando o feto para longe, a luz azul era um sinal de que o índice de audiência não estava indo muito bem, então as câmeras mudaram de foco, todos as três agora filmavam a repórter que tirou um chicote de dentro da bolsa e segurando-o com a boca, lentamente começou a desabotoar a camisa branca com o logotipo do canal 15.

sábado, 12 de janeiro de 2008

Das vaidades vadias

Pavo Muerto, de Goya.

Das Vaidades Vadias


o poeta está cansado
da política
da boa vizinhança
do bom-mocismo

de dizer amém
do façamos amor
do não à guerra
do tudo-em-paz

queimem os terços
desfaçam o sorriso falso
e cansado
da foto que não lhes traduz

assumam a angústia
o patético
da crise de meia-idade
dos seus 18, 30, 50 ânus

carreguem como bandeira
a solidão das convicções
abandonadas
em troca de aceitação

tudo cheira mal
perfume francês
avenidas bem-cuidadas
para o inglês ver

tragam os miseráveis
os assassinos às ruas
os viciados e as damas
mais sacanas e risonhas

vamos criar um hino
da doença entre as coxas
do fétido ar de bosta
das vaidades vadias

vamos, otimistas
vomitar aos pés
das árvores centenárias
e morrer cantando

uma canção de desconsolo
de pouco caso
de desumanidade
de medo do medo do medo do medo...

Beijos e abraços prop(h)anos!

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Voltei

Depois de meses bancando a auto-didata, estudando que nem asno pra acabar escrevendo as asneiras que fui capaz de escrever no Vestibular, volto pra poesia, pra boemia e pros meus amigos.
Não acho que passarei em nenhum dos vestibulares que prestei, mas pelo menos consegui uma bolsa integral de Radio-TV na Anhembi Morumbi e estou até feliz. As provas dissertativas que fiz na segunda fase da Fuvest, despertaram o meu lado cômico e criativo. Eis algumas pérolas minhas para o vosso deleite:

* Uma exigência pra entrar na União Européia: tem que ser um país europeu.
* O líder do povo de Canudos: Antonio Alejadinho
* Um legado da Idade Média: o iluminismo
* A Coréia do Norte construiu um muro pra se separar da Coréia do Sul.
* A base de Pearl Harbor (que eu achei que era Pearl Harbor, mas era o Hawai no mapa), foi construída pra proteger a costa americana de possíveis ataques dos japoneses, e está localizada na linha Data do pacífico justamente pra ter a vantagem de estar um dia adiantado....

Enfim, meu teste de Q.I. deu negativo.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

?


A vista embaçada. A luz que invade a vida pela janela...?

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

O ESCRITOR E A SUA COLEÇÃO DE CLICHÊS

Havia uma verdadeira procissão deles reunidos na sua frente, pararam todos encarando o escritor como se ele fosse um chimpanzé albino. Estavam amontoados por todo o tapete da sala, alguns subiram escalando as poltronas e agora se aglomeravam também perto dos seus dedos, junto a máquina. Parou por um instante, pouco antes de dar uma ultima espiada pela janela, costumava olhar na direção da estrada e isso muitas vezes servia de inspiração, fosse um carro que aparecia, como se surgisse do nada, por detrás da extensa plantação de milho, voltando a desaparecer na curva, logo depois do muro branco do cemitério, fosse alguma criança vizinha pulando corda ou moleques da cidade pichando cercas e atirando em garrafas e patos. Só que dessa vez não vinha nada, ninguém. A estrada e o campo estavam igualmente desertos e nem sinal de inseto algum que fosse. Olhou outra vez para eles, continuavam a encara-lo como se estivesse preste a contar o final da ultima piada, a ultima linha do ultimo capitulo. Elaborou um rápido plano de fuga, saltando por cima da mesa e pulando pela janela, não morava mais no 4º andar de um prédio, sem riscos de acidentes, portanto. Olhou para suas pernas. Uma coleção daqueles pinos todos que brilhavam no escuro, por dentro da sua pele, e eram pinos de todas as cores, verdes fosforescentes, brancos, amarelos, vermelhos, a ultima palavra em tecnologia estética em Taiwan ou qualquer lugar assim. Desistiu do plano de fuga quando dois clichês de tamanho mediano pularam nas suas costas, escalando sua camisa molhada e desabotoada, até alcançarem seus ombros. Um era uma mulher de salto-alto, mini-saia e cigarro entre os dedos, grossos lábios vermelhos combinando com aqueles olhos chapados de pírulas abortivas e champanhe o outro era um conversível numa alto-estrada seguindo a caminho de uma praia mais ou menos como LA em mil novecentos e trinta e pouco, parecia meio velho e desfocado da paisagem local, mas seguia rápido como se a estrada fosse feita de trilhos – o conversível-locomotiva – pensou – guiado por um detetive qualquer com uma dose de obstinação e uma estória de crimes conjugais aparentemente perfeitos, ele, o detetive, como ela, a mulher de salto-alto, fumavam a mesma marca de cigarro e exceto por duas décadas e meia de diferença entre suas estórias, pareciam não ter grandes diferenças. Um outro se empoleirou na tecla no asterisco, e ficou lá, olhando para ele e rindo, como uma criança besta, se tratava de um moleque chinês percorrendo as ruas infestadas de ratos e figuras cabisbaixas cambaleantes pela Pequim de 57, usava roupas de tons escuros, bem neutros, como se quisesse permanecer escondido no meio da multidão e da fumaça urbana. Pulou de um lado para o outro, com uma fatia de peixe embaixo da camisa e duas batatas em cada uma das mãos enquanto os mercadores corriam na sua captura, munidos de facões gigantescos e reluzentes, embora meio-enferrujados – não vai ser fácil livrar-me desse – pensou o escritor. Apanhou então uma folha em branco e escreveu as primeiras palavras da primeira estória, tratava agora da mulher de salto-alto e mini-saia, parada na saída de um hotel cinco estrelas de alguma cidade mais ou menos paradisíaca e perigosa da costa oeste americana. Não era uma estória difícil – pensou – e no final ela morreria com um tiro de um mafioso local que depois teria o mesmo fim num confronto com dois policiais disfarçados de viciados. Pulou então para a estória seguinte, sem pausa. Só fez pegar outra folha e teve inicio a saga do detetive obstinado percorrendo uma estradinha que ziguezagueava as encostas de um litoral ainda inabitado pelas hordas de moradores sedentos por consumo de qualquer espécie. Antes de terminar a estória foi até a cozinha, encheu um grande copo com água gelada e antes de esvazia-lo olhou para a sala, para aquela multidão de clichês que esperavam pacientemente enquanto ele não vinha. Cada um tinha a sua particularidade, a sua estória para ser contada, conhecia todos de longa data e sabia que não sairiam de lá tão cedo. Escorreu a água pela cabeça e como se estivesse bêbado saiu porta fora respingando água por todo lado, antes de desabar inconsciente no tapete da sala, esmagando milhares de pequenas crianças ainda não muito bem nascidas. E enquanto perdia-se em paisagens lunares e coisas sem muito nexo, um moleque chinês pulou pela janela da sala correndo em direção a estradinha, carregava um estoque considerável de frutas e verduras frescas enroladas na camisa e nem teve o trabalho ou tempo de fechar a geladeira. A única coisa que deixou foi o rastro de uma estória ainda por acabar, enquanto um detetive e uma prostituta faziam uma festa particularmente estranha no quarto ao lado.