terça-feira, 11 de março de 2008

O PRESENTE IDEAL

Passavam das oito da noite quando o telefone tocou, era a Bruna do outro lado – Ta sabendo que hoje é aniversário da Mhel? – Não – não tava, mas o quê é que isso tinha? Eu tava em casa fodendo o teclado com os dedos, o Lucio Caolho do meu lado não parava de gritar e agitar aquela garrafa acima da cabeça – Você vai acabar derramando essa merda – avisei – Oi, não, é só o Lucio Caolho que resolveu aparecer por aqui, ta bêbado feito maluco e não para de berrar – Não tem jeito de dar uma despistada nele? – a Bruna definitivamente não ia com a cara do sujeito, se bem que, eu também não topava muito com ele, a nossa amizade era um complô interesseiro, um bêbado solitário e um lunático que só sabia falar asneiras – Não tem jeito. E além do mais ele acabou de me emprestar trinta contos – Trinta contos? – ela perguntou do outro lado como se não estivesse acreditando – Podemos comprar um bolo com essa grana – Merda – pensei e peguei as chaves e peguei o carro e sai puxando o Lucio Caolho pela manga da camisa até o outro lado da rua – Para onde vamos? – ele perguntou, limpando o nariz com as costas da mão – Vamos pra casa de uma amiga – Amiga? Que amiga? Ela é gostosa? – Se é – Solteira? – Solteiríssima – então mudei de assunto, porque conhecendo bem o Lucio Caolho como eu conhecia, tinha certeza de que ele iria ficar naquele papo durante uns dois dias no mínimo. Seguimos por ruazinhas de bairro, com sobradinhos pequenos, Thelonious Monk solava de vez em quando e o maluco no banco do passageiro continuava agitando aquela garrafa como se fosse algum tipo de hélice. As quinze para nove estávamos na porta da casa da Bruna, desci e toquei a campainha, o doido do Lucio foi até a buzina do carro, meteu a mão e ficou segurando, corri até lá e puxei ele pela camisa outra vez – Tira a mão dessa porra – gritei e então ele foi até o meio fio do outro lado e ficou sentado como se fosse um menininho emburrado, pelos meus cálculos ele devia ter no mínimo 55 anos, embora seu comportamento fosse de alguém com cinco ou seis anos, não passava de um idiota e talvez eu não estivesse muito longe disso. A Bruna enfim apareceu – O que foi aquele barulho todo? – referia-se à buzinada do Lucio – Ah, foi aquele aborto – Apontei para o Lucio, que continuava sentado no meio fio, levantou a cabeça num gesto tímido e voltou a abaixa-la entre os braços – Vamos lá Lúcio – A Bruna chamou – e então, depois de algum tempo, entramos os três no carro e seguimos até o centro da cidade onde a Mhel dividia o apartamento com uma velha neurótica colecionadora de plantas. – Vamos comprar um bolo? – a Bruna sugeriu – Acho que a Mhel ficaria mais feliz com um maço de cigarros – Uma torta – o Lucio Caolho gritou do banco traseiro – Pode ser – Podemos fazer como os palhaços fazem – eu disse – Como assim? – A Mhel vai abrir a porta e então tacamos a torta na cara dela – expliquei e o Lucio Caolho pareceu gostar da idéia, deu uma risada maluca como se estivesse rosnando – Ela é gostosa? – perguntou outra vez – Que tal se nós comprássemos laxante e colocássemos no bolo? – a Bruna e suas idéias de última hora – Depois íamos dar uma volta por aquelas ruas com aqueles barzinhos burgueses da Vila Olímpia – Mas se não me engano tem banheiros por lá – eu falei – e seguimos todo o trajeto, quase cruzando a cidade de uma ponta à outra tentando encontrar um presente ideal – Sabe que a idéia da torta não é de todo ruim – a Bruna falou quando eu dobrava a ultima esquina antes que finalmente entrássemos na rua onde a Mhel morava. E lá fomos nós até um supermercado 24 horas a procura da tal torta, deixamos o Lucio Caolho vigiando o carro, para o caso de algum rato gigante tentar ataca-lo – Ratos gigantes não existem, não existem, não existem, não existem – ele começou a gritar e a agitar a garrafa acima da cabeça outra vez, seu nariz escorria até o queixo, prometemos comprar uma outra garrafa de cachaça, de modo que ele se acalmou um pouco, entramos no supermercado, mas não encontramos nem sinal de torta, na falta de coisa melhor, um bolo de hortelã mal acabado, parecia bem apropriado para a ocasião. Voltamos com o bolo e a bebida do Lucio Caolho – Nada de ratos gigantes selvagens? – perguntei – Nadica de nada – respondeu estendendo aquela mão imunda para que eu lhe entregasse a garrafa – Você acha que a Mhel vai gostar do Lucio? – perguntei para a Bruna assim que liguei o motor outra vez – Ta maluco? Nem barba ele tem – Mas gosta de Chico Buarque – e com essa resposta a Bruna ficou pensativa por um tempo e o Lucio tava distraído emborcando seu novo brinquedinho no banco traseiro, viu quando viramos para trás e então chegou bem perto do meu ouvido direito – Ela é gostosa? – perguntou de novo – Já falei que é - Parei o carro bem em frente da entrada principal, a Bruna veio carregando o bolo com as duas mãos, era um bolo dos grandes – Será que conseguimos acertar bem na cara? – ela perguntou, antes que tocássemos a campainha – Sério que você ta afim? – eu não podia acreditar naquilo, era bom demais pra ser verdade – Sério – ela disse e então o Lucio soltou outro berro e uma vizinha abriu a porta e botou a cabeça pra fora, era uma velha – Olá vizinha, somos amigos da Bel e ela é bem gostosa e – puxei o Lucio para o lado – Cala essa boca maldita – nisso escutei um estrondo, alguém tinha acabado de abrir a porta na casa da Mhel e a Bruna jogou o bolo de hortelã na cara dessa pessoa e descobrimos que essa pessoa não era a Mhel, era a velha neurótica que morava com ela, e a velha correu atrás da gente com uma vassoura e o rosto coberto de bolo, saltamos os degraus até o térreo, o Lucio Caolho veio gritando e ao invés de entrarmos no carro, dobramos a esquina e despistamos a velha, devia ser tarde da noite porque a rua tava silenciosa e deserta, na outra extremidade, a luz de um bar semi-iluminado, fomos até lá, a Bruna ria e o Lucio Caolho agitava aquela outra garrafa no ar mais uma vez, pulando de um lado para o outro e dando encontrões em cada poste do caminho, só eu parecia não estar me divertindo muito. O bar no fim da rua era uma podreira, mesmo assim sentamos nuns bancos de madeira que ficavam junto do balcão, pedimos duas cervejas e três copos – Será que a Mhel tava em casa? – perguntei – Ela é gostosa? – Lucio Caolho e a sua fala da noite – Olha a Mhel ali – A Bruna disse apontado para uma mesa no fundo do bar, ao lado do banheiro, tava de costas para a gente conversando com um carinha de barba e cabelo comprido – Vamos atrapalhar? – achei melhor ficarmos por ali mais um pouco, nisso o Lucio tinha saído e parou sentado e emburrado como sempre, escondendo a cabeça entre os braços – Talvez nem seja a Mhel – Pode ser – a Bruna respondeu, antes de virar o primeiro copo num único gole como fazia às vezes quando as coisas não davam lá muito certo. Tanto faz, pode ser como não pode – tava escrito num anúncio de preservativo, perto dos maços de cigarro, no balcão, e ficamos todos nessa a noite inteira.

Um comentário:

Mary Helen disse...

Ai, Paulete! Só você mesmo...rs
Essa benzina tá te fazendo mal, eu já disse.
Obrigada pelo conto! Beijo