sábado, 1 de março de 2008

BARRACÃO

Eu olho por inteiro, este teu vácuo profundo.
O teu teto de peneira, todo furado e imundo.
Tua parede de madeira, tão podre e sem jeito.
E me vejo torturada na poça de tua água.
Que marcou o meu peito como um esgoto de mágoa.
E olho pro teu quarto tão velho, em teias,
onde dormi sem sono limpando tuas sujeiras.
Onde sonhei em morrer e sangrar minhas veias.
Onde chorei sem pranto e jurei ao meu santo que veria alegria em todos os teus cantos.
Mas não pude.
Em meio a tanta tristeza que me despedaçava, que me enfurecia
Noite após noite,
dia após dia.
Eu limpava tuas fezes e limpava tua urina.
Sentindo o cheiro de algo que jazia.
E ouvia meus filhos pedindo comida
enquanto tu tiravas minha vida.

Ah! Barracão, barracão!
És tão pobre de corpo, és tão podre de alma
que a minha coberta era a terra de teu chão.
Mesmo com silêncio tentaste me enlouquecer.
Torturaste-me e me fizeste sofrer.
E eu sofri, mas não me entreguei.
E eu sangrei, mas não gritei.
Catei papel, mas não mendiguei.

Ah! Barracão, barracão!
Deus é justo e tu sofrerás também.
E não poderás gritar.
Não poderás chorar.
Morrerás tábua por tábua,
gota por gota.
Então ficarei te olhando, observando a tua morte.
Irei gargalhar e gargalhar.
E debruçada sobre o teu corpo eu chorarei pela última vez.
Não será pelo que me fizeste.
Não será pela minha saudade.
Chorarei sim,
pela tua desgraça.

4 comentários:

Paulo Cezar Filho disse...

o barracão é como um caixão.

Alessandra Queiroz disse...

Maravilha, levou muito tempo para colocar o velho barracão por aqui, mas, valeu a espera!

Saudade!

Biseaus

Rafael Mafra disse...

Enfim!!

Mary Helen disse...

No creoo!!!!

Que beleza, Rodney!
beijão