sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Ofício



Não é que tivesse nascido, inato, ali, assim, dentro e atuante como um coração ou um rim ou um futuro câncer. Também não foi caso adquirido, assim como acontece com certas doenças, na troca de ares, sangue ou líquidos corporais. Foi contágio, sim, mas de outro tipo. Aparentemente quieta, lentamente, gradual, foi quase imperceptível a adicção. Pode-se chamar de contágio social. Na prática, nem é considerado contágio. Chamam de dom ou dizem que tal pessoa “nasceu pra isso ou pra aquilo”. É até comemorado e respeitado.

Desviando um pouco do assunto, é engraçado como essa coisa acontece quando se trata de pensarmos sobre a morte. Ela sim é que seria algum tido de “dom”, porque domina, é inata, programada, desde sempre, em qualquer tempo, para todos. Mas é tratada como surpresa, como um triste imprevisto. E, pelo contrário, é chorada e não querida. Mas isso são outros papos...

Nasce um ser humano, uma unidade. Pequena criança e já carrega consigo grandes esperanças, esperanças pequenas, futuras frustradas esperanças, sem saber; sem nem sequer ter a capacidade de saber de algo. Antes mesmo de fazer funcionar, ou – para outros teóricos – adquirir suas ferramentas de linguagem, já impõem-lhe uma missão: ser feliz, ter sucesso, e sinônimos do tipo. E, para cumprir sua missão, aquela criança, pequena criatura desejando morrer no conforto do leite materno, nem imagina que terá de enfrentar incoerentes lições e exercícios de uma cartilha duvidosa. A cartilha da vida. Sim, claro! Pois que a felicidade e o sucesso requeridos em sua missão não são quaisquer uns. São pré-conceituados, padronizados; abrangem um minúsculo ângulo de um círculo de possibilidades que existem apenas pelo fato de se respirar; e se formam de requisitos que excluem e classificam todo o restante, tudo aquilo que sobrou, como fracasso ou frustração.

É óbvio que essa cartilha não se encontra em qualquer lugar. Aliás, na verdade, ela nunca nem mesmo foi escrita, muito menos impressa em folhas de papel para se ler, apesar de muitas e tantas tentativas. Dizem que ela se inscreve, se imprime no coração e na mente à medida e simultaneamente em que se vive a própria vida. Dizem isso, mas nem sempre se importam em considerar que é um argumento barato; nunca assumem que não têm tanta certeza sobre isso e sempre se esquecem de perceber que a cartilha existe, sim, mas é outra, que não é lida e nem dita, mas ditada num silêncio de mudez desde a fecundação da primeira idéia de felicidade ou sucesso que sempre se quer impor às vidas alheias.

Seguimos a cartilha, sem querer, sem nem sequer ter a propriedade de querer algo, e vamos nos convencendo que temos de respeitar, senão seremos mal-criados; que temos de ser inteligentes, senão seremos pobres; que temos de estudar para ficarmos ricos, senão seremos burros; que temos de ser isso e aquilo, senão seremos alguma coisa muito ruim. E vamos aprendendo a cartilha sem perceber, gradualmente.

Num dia nasce a criança, unidade, e no outro está ali, aquela coisa crescida, indivíduo, com mais que década de conceitos e anti-conceitos, de inteligências e ignorâncias; pra ser mais exato, ridiculamente formado e completo de coisas das quais gosta e também das quais não gosta. Ou seja, nada de mais, animais também, desses os quais chamamos irracionais e também de bestas, gostam e também não gostam de coisas.

Mas ainda é cedo, e só agora é que aquela criatura, que agora a chamamos de homem, genericamente, que tanto faz homem ou mulher; mas, continuando, só agora é que a figura está pronta para iniciar a busca de seus objetivos, que apesar de assim os chamarmos agora, continuam sendo aquela mesma missão, só que disfarçados numa outra palavra de viés mais adulto e urbano. Se esse homem quiser mesmo dar cabo a essa missão, ou atingir seus objetivos, então terá de continuar seguindo à risca os exercícios que lhe foram impostos. Agora ele deve completar ao menos um curso superior, que assim é chamado para lhe conferir maior grau de importância na tabela de importâncias às quais nos atentamos. E antes de ser o dito superior, o homem torna-se estagiário. E depois de formar-se, toma um bom emprego, requisito essencial da cartilha. Depois de alguns anos de excelentes dedicação e renúncias, ele começa a vislumbrar a possibilidade de ter sucesso e ser feliz. Porém, sendo conceitos tão impossíveis, que é isso o que mostram a história, a filosofia e a nossa própria vida, o sucesso e a felicidade já estão simulados em bens de consumo e bens duráveis. Durante algum tempo, bastante tempo, esses bens bastam. Mas depois nosso homem começa a pensar em aposentar-se. E pensa, pensa, pensa algum tempo, ou melhor, bastante tempo. E depois percebe que aquela vida bem sucedida, pacífica e feliz ainda está longe, muito longe. E ele tenta esquecer disso, e vai esquecendo e esquecendo e esquecendo e esquece-se de vez. Não precisa mais lembrar. Já acorda automaticamente e chega ao trabalho sempre no horário. Dá as ordens certas no momento exato, pois agora é um superior. Tem roupas certas para o ofício e roupas certas para o descanso. O prazer está, se ainda é prazer, dentro dessas duas roupas. Atende o público e fala em voz alta, ninguém ousa contrariá-lo. Senta em sua mesa e assina papéis e mais papéis, decide a vida de outras pessoas que também seguiram ou estão começando a compreender a cartilha. Agora ele não é mais um ser ou criatura, criança homem e nem figura, talvez caricatura tornou-se. Tornou-se
Escrevente Autorizado de Tal Registro de Imóveis de Tal cidade. Atrás de seus óculos, de sua mesa e de sua curiosa máquina de perfurar datas em documentos, é a perfeita imagem de um Escrevente Autorizado, nasceu pra aquilo. Ninguém em sã consciência quereria serviço menos qualificado, nem creria em tamanha qualificação. Tornou-se agora uma peça, perfeita, em seu ofício; um parafuso, quem sabe até uma engrenagem, vital, que auxilia a funcionar a máquina da sociedade em que vivemos, e justifica a impressão daquele nosso manual, daquela cartilha.

Quanto à missão, que fique ali, quieta. Outras gerações haverão de cumprí-la.

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