quarta-feira, 27 de junho de 2007

A PESSOA QUE FALTAVA.

Passou a vida inteira procurando a pessoa que faltava. Sempre fora assim, desde os tempos de moleque, enquanto os outros brincavam, ele olhava com inexplicável nostalgia para os muros do fundo do colégio e em pensamentos, perdia-se dos outros. Das brincadeiras. Pequenas bobagens. Afastava-se por completo, naquela busca que era só sua. Sua e de mais ninguém. Ou será que havia outro alguém? Era isso o que estava procurando. E sua vida era como se tivesse um furo. Um cômodo vazio. A ausência de algo que sempre estivera ali, antes que ele chegasse.
Procurava pela pessoa que faltava. Essa que não estava mais. E ele não sabia ao certo se já estivera um dia. Procurava. Ia de casa em casa, e nada. Filas das casas lotéricas e do supermercado, parques, avenidas, cinemas, bancas de jornal. Certa vez pensou ter-la encontrado num ônibus a caminho de Minas, ledo engano. Era uma cigana querendo ler-lhe a mão, contar-lhe acerca de certos segredos que estavam à espreita, na próxima esquina da vida. Vacilou um pouco entre a decisão de pagar ou não pagar as cinco moedas que lhe custariam a tal consulta. Até que acabou desistindo. Não acreditava muito nessas coisas. Vai ver é tapeação, titubeou. Outra vez pensou ter-la encontrado numa roda gigante, ele tava lá embaixo, aguardando, na fila. Ela lá em cima. Sorrindo. Então desceu. Subiu novamente. Ele ficou olhando. O cabelo. O sorriso. Olhando e imaginando. Sonhando. E quando a roda gigante tornou a descer pela segunda vez, ninguém. Nada. Teria sido uma miragem? Um sonho? Estaria ficando louco? Que fosse. Continuou procurando. De cidade em cidade. Colocou anúncios em jornais de pequena circulação (não tinha dinheiro suficiente para os maiores). Andou a pé. Errante. De lá pra cá. De cá pra lá.
Chegou ao fim da vida. E tudo o que encontrou foram dores, rugas e cansaço. Esteve bem perto de perder a esperança. Mas isso, nunca. Era mais forte que ele. Precisava encontrar a pessoa que faltava. Questão de vida ou morte. Até que, certa tarde de quinta-feira tombou morto, mortinho da silva, como veio me contar tempos depois, uma sobrinha. Parentes e vizinhos logo se apresentaram para as devidas reverências, condolências e todas essas coisas. Nada mais importava.
E quando o caixão baixara na medida exata dos sete palmos. Irrompeu-lhe de repente uma forte comichão, debateu-se, contorceu-se, até que por fim despertou e olhando-se refletido naquele mogno encerado, novinho em folha. Encontrou-se nos dois olhos que arregalados, assustados, procuravam ainda compreender. Embora já soubesse, não havia nada para ser compreendido. Finalmente havia encontrado a pessoa que faltava.

3 comentários:

Leticia disse...

não sei o que dizer... realmente belo e raro... me lembrou outras coisas... memórias póstumas no final... a-do-rei.

Nelson Galvão disse...

Caralho Paulinho!

Desculpe, mas esse foi o comentário imediato que minha boca soltou...

Alessandro disse...

Paulinho, não faça mais esses retratos de minha pessoa!

Ó, Deabos! :-)