quinta-feira, 5 de julho de 2007

A MORTE DE MARK CHAPMAN

Aquele dia foi um dia como outro qualquer. Quero dizer, com exceção do barulho todo que as pessoas faziam nas ruas, pouco antes da contagem regressiva na Times Square, as coisas pareciam absolutamente normais, a neve que acumulara-se na janela em nada diferia da neve que caíra no ano anterior, o ronco de Starsbolk, meu companheiro de turno, era o mesmo, incessante e terrível, até a musica que tocava no rádio continuava sendo a porcaria de sempre, aquele blá blá blá interminável de um raper qualquer metido a besta.
Acontece que, embora toda aquela agitação que precedia a virada do ano, toda aquela balburdia ao ritmo de temas natalinos e pacifistas, havia um ruído que me incomodava sobremaneira naquela noite. Vinha lá dos lados do corredor norte, onde as coisas normalmente eram um pouco mais silenciosas. Chequei as câmeras internas e nada encontrei de anormal, exceto é claro, pelos longos dedos de Kinsey fora da cela, Kinsey fora um bandidinho de aluguel nos tempos de mocidade, vangloriara-se de seus feitos passados, matou dois caras certa vez, em meados de 1970, até que foi pego, dirigindo bêbado à caminho de Chicago. Agora, entretanto, não passava de um velho com seus dedos enrugados, fitando o chão cinza da penitenciária. Voltei os olhos para Starsbolk, continuava dormindo, o ronco parecia ter diminuído um pouco, remexeu o corpo na cadeira, dizendo coisas ininteligíveis e tombou a cabeça como se sonhasse com alguma coisa agradável o bastante para que eu o acordasse. Fui até a máquina de café, aquele ruído parecia ainda maior, nem cheguei a tocar no copo, voltei para as câmeras, tudo normal do lado norte, leste, oeste, sul. Até que meus olhos deram para aquele quartinho, um minúsculo quartinho no final do corredor norte, era onde os faxineiros guardavam panos, baldes, vassouras, todas essas coisas. Tentei a comunicação pelo rádio, mas Altaman, o faxineiro, não respondia, provavelmente estivesse metido no almoxarifado, bêbado, escutando a algazarra que vinha das ruas. Como era véspera de ano novo e nessas épocas, por mais firme que um sujeito seja, é preciso reconhecer que somos invadidos por inexplicáveis sentimentos humanitários, resolvi não incomodar Altman, tampouco Starsbolk. Olhei novamente para a câmera que captava a porta do quarto-despensa, apanhei as chaves e me dirigi até lá. Nem é preciso dizer que à medida em que eu avançava, mais estridente se tornava aquele ruído, até que foi tomando forma, a forma de um zumbido muito alto e irritante, girei a maçaneta, abri a porta, o ruído continuava, dessa vez ainda mais alto, acendi a luz, olhei para todos os lados, nada encontrando, revirei aqueles baldes e panos todos, cogitei a possibilidade de estar enlouquecendo depois de tantos anos trabalhando com todo o tipo de maluco que se possa imaginar, revirei as vassouras, os rodos, o zumbido continuava, cada vez mais alto, até que por fim encontrei-o, perto do rodapé, atrás do encerador, mexia as anteninhas e parecia me encarar, peguei o inseticida e joguei uma vez, nada, continuava no mesmo lugar, zumbindo e me encarando, joguei outros dois jatos, tombou no segundo, ficou lá, esperneando e zumbindo, aquelas perninhas todas agitadas, não me encarava mais, parecia desesperado. Fiquei um tempo olhando, até que o barulho e a agitação das pernas e das antenas foi diminuindo, diminuindo. Então silenciou. Pisei em cima para ter certeza de que não voltaria a fazer barulho quando eu saísse. Uma gosma verde espirrou pelo chão. Era pequeno. Não maior do que um mosquito desses comuns. Voltei para a minha sala, Starsbolk que acordara a pouco, veio com dois copos de café. Fez o serviço? Ele perguntou. Fiz. Respondi. Vamos pedir umas pizzas, afinal é noite de ano novo. Chamamos Altman pelo rádio, nada. Deixa ele pra lá. Comentei. Os ponteiros na Times Square marcaram meia noite de 31 de dezembro de 2007. Ouvimos os fogos. Depois de um tempo tudo voltou ao normal. Inclusive a porcaria da musica que tocava no rádio.

5 comentários:

Rafael Mafra disse...

Cacete, velho!
Gosto dos seus textos, s�rio!
Abra�os!

Rafael Mafra disse...

Mark Chapman?

Paulo Cezar Filho disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
ricardo games disse...

senhoras é senhores

o nosso mark chapman

mark chapman???

rsrsrs

Alessandro disse...

Eu quero escrever o fim do mundo um dia desses. Não sei por quê...