quinta-feira, 5 de julho de 2007

Dois textos velhos.

O Sanguinolento

Ele achava uma besteira toda essa história de pistolas e munições.
Vanderson queria ser bandido, mas não gostava de armas de fogo.
Era um sonho louco. Uma coisa fora do normal.
"Bandido nunca foi profissão", dizia sua mulher.
Ele dizia que sim. Nada digna, mas se fosse por isso, políticos, padres e agiotas também deveriam ser punidos pela lei.

"Abençoadas sejam as leis", ele sempre dizia.
Gostava mesmo delas.
Respeitava todas quando não estava em serviço.

Mas, voltando ao assunto: ele não gostava de fogo.
Gostava mesmo era de facas.
Pontudas e afiadas. Preparava com carinho a faca de cada dia.
Amava todas de sua coleção.
Gostava do sangue escorrendo pelo fio de corte.
Quando respingava em sua roupa e encharcava suas mãos de sangue ia ao êxtase.
Sempre calmo. Sempre frio.
Vanderson queria ser bandido.
Morreu como açougueiro.


***

E você, quer o quê?

Queria dormir mais e acordou.
Ia ficar deitado na cama, mas levantou.
Não quis tomar café, mas estava sem açucar.
Dessa vez ia de carro, mas a greve dos ônibus o atrasou.
Ia pedir as contas logo de manhã, mas trabalhou.
Pediu à tarde, mas isso não é nada relevante num escritório de contabilidade.
Iria se demitir ao fim do dia, mas fez as contas e viu que não podia.
Na volta quis ir de metrô, mas os ônibus engarrafados sem aumento de salário o incomodaram mais uma vez.
Quando chegou em casa pensou em fugir.
Pena que já estava em casa.
Ia aproveitar pra comer salada: emagrecer.
E queria depois uma imensa sobremesa: prazer.
Comeu apenas um pacote de macarrão instantâneo e tomou uma com limão porque não tinha vinho.
Queria dormir cedo, mas tinha jogo na televisão.
Queria assistir tudo, mas adormeceu no intervalo.
Quando acordou com o filme da madrugada quis morrer, mas só dormiu.
Em seus sonhos ele quis tudo e conseguiu.
E logo acordou do pesadelo.
Queria esquecer de tudo, mas pensou na vida.
Queria desistir de tudo...
...desistiu!

3 comentários:

Paulo Cezar Filho disse...

Encontrei um pouco de tanta gente nos dois textos. e naquela multidão, ví de relance - eu mesmo. fingindo. fingindo. fingindo.

ricardo games disse...

Duas bombas sincronizadas

parabéns

Alessandro disse...

Como não ser?

Como não ser assim?