quinta-feira, 19 de julho de 2007

média piada


É engraçado.

Os transeuntes e o trânsito na mesma briga de sempre entre paredes e chão concretados e árvores asfixiadas. Seu desejo insaciável de adquirir um automóvel cada vez mais zero quilômetro pra encher de amigos e xoxotas. Muitas mulheres por aí engordam e entopem as artérias de gordura e entopem o rosto de maquiagem e se entopem de hipocrisias demais e dizem que nem ligam, pois já estão casadas. Os homens, apesar de casados, nunca desistem do carro mais novo, pois ainda não comeram a secretária, a vizinha, nem a amiguinha da filha e nem os colegas invejosos do escritório. Os filhos, inspirados em filmes e novelas de maior sucesso, seguem bebendo, fumando e cheirando o dinheiro, os bagos e os ovários dos pais, sempre se achando muito espertos, mas sem nunca aprender a dar uma boa foda, porque o cordão umbilical atrapalha. Apesar de tudo, essa classe média vive bem e feliz, pois já encontraram especialistas que isolam perfeitamente as paredes, o teto e o piso do apartamento. Juntam isolamento acústico com elevadores privativos e vidros com insul-film 100% e está ótimo, nenhum vizinho perceberá nada. E, se acaso perceber, eles também têm seus podres. Guerra fria no condomínio!

É engraçado.

Os sobrenomes, os escudos, as famílias. Sempre que vão ao show da rita lee se vangloriam intimamente por serem a única ovelha negra. Não importa se apenas deram sorte ou se fizeram por onde, estão sempre à parte por serem os únicos que fizeram e fazem, que pensaram e pensam alguma coisa diferente. Nenhum deles está incluso no grupo que todos eles formam. Falam as mesmas palavras elaboradas e exclusivas (no sentido exclusivo da palavra) não por falta de opções, mas porque dizem sempre as mesmas lorotas: moral, ética, religião, não-religião, política, emprego, salário, quanto?, carro, casa, casa de campo, apartamento no litoral, previdência privada, criei meus filhos, um advogado, uma veterinária, outro arquiteto, aposentadoria, suéter, cachorrinhos de estimação, tempo, netos, velhice com a cabeça grisalha pra fazer comercial de plano de saúde. Mas são apenas estereótipos, coitados, não é justo! Mas o que são estereótipos? Talvez não seja a percepção desta caneta que esteja a pecar. É a média que peca, mas tanto faz! Recebem sempre o perdão de um padre bem pago, moribundos na cama rodeada pela família, solidária, que já carrega nos bolsos os advogados, já maquinando como lutar pela maior fatia da herança dos bagos do velho tão logo ele deixe de teimosia e solte o último suspiro.

E não deixa de ser engraçado.

2 comentários:

Paulo Cezar Filho disse...

e por falar em zine - taí um editorial do caraleo.

Alessandro disse...

Paulinho, disse tudo.

Mafra, disse tudo e mais um pouco. Eu queria ter escrito isso. Só que eu fiquei mole... ah ah ah!