quarta-feira, 30 de maio de 2007

Le nom de la mort

Aqui jaz meu corpo ainda vivo, num quarto de hotel. O sangue escorre na memória das últimas horas. Sinto seu gosto na garganta, sufoca-me. Mas estou sem forças para morrer.
Eu poderia ter clamado piedade, um tiro de misericórdia. Mas a arma que me cala é arma branca, como era branca a pele do meu seio que vejo trucidado.
Vinte e tantas primaveras e acho que a morte já me vem tardia. Uma vida sem regras termina cedo. É selada com sangue. Faz parte do jogo daqueles que teimam em viver. Não reclamo, eu quis assim. Preferi as noites em claro à claridade do dia. Quis o copo, a fumaça, o risco. Abdiquei do direito à saúde, à morte natural.
Sempre temi a morte natural, deve ser horrível! Sair da vida com ordem de despejo, como se o próprio universo já não suportasse sua presença. O fim, durante o sono, indolor, sem explicações, foi feito para os fracos. Eu bem sei o que posso suportar. Não verei filhos crescidos, nem netos, nem viverei o suficiente para ser um estorvo. E ainda assim, serei lembrada.
Sinto dor, mas não quero gritar. Queria perder a consciência, mas algo me mantém lúcida para o que há de vir. Todo sangue do meu corpo já se perdeu e a morte não vem. Não vejo anjos, não vejo deus, não vejo o filme da minha vida, nem tenho calafrios, apenas dor.
Ele parecia tão gentil...
Nunca se sabe quando o escolhido para romper sua história estará presente. Eu nem percebi. Sempre confiei naqueles com quem dividi a mesma cama. Pareciam que quando despidos, não havia o que esconder, tornavam-se homens, nada mais.
Hoje não foi diferente, quando vi o punhal e seus olhos me perfurando, tudo que senti foi calor. Um calor de quem se entusiasma diante da novidade. Não consigo lembrar seu nome. Segurou meus cabelos com toda sua ira e mordeu meus lábios, foi um beijo. Meu último beijo.
– Se queres tirar minha vida, que saibas fazer com classe! – intimei, ainda sorrindo, ao que parecia ser um jogo. Era um jogo. Mas o primeiro golpe mostrou que não havia regras.
Sem regras, como toda a minha vida.
Senti a dor do meu seio rasgado e caí. Não pedi socorro, não chorei. Não quis recusar a morte, gentilmente oferecida. Não lembro seu nome e até sua imagem surge distorcida.
Penetrou-me bruscamente, como se não bastasse minha dor. Quando senti meu ventre invadido, esqueci por um instante que do meu peito jorrava sangue e gozei do meu último prazer. Os prazeres da carne que precede o fim é privilégio de poucas. Gritei e só fiz isso porque senti a excitação que meu pânico lhe causava. Não decepcionei. Ainda sinto o forte cheiro do seu corpo, eu só queria lembrar seu nome.
Vestiu-se calmamente, enquanto o que de mim sobrava rastejava pelo quarto. Pensei que ouviria explicações, mas não disse uma só palavra. Foi embora, não olhou para trás.
Premiada com a tragédia, serei notícia. Alguns amigos darão depoimentos e citarão belas palavras em meu enterro.
Com que foto minha estamparão os jornais de amanhã? Espero que com a minha preferida, de um tempo que parecia feliz.
Não sinto mais meu corpo, está tudo dormente. E minha cabeça não adormece. A morte não veio. A diária venceu. E eu não quero ser encontrada com vida. Quero a morte solitária num quarto de hotel como num filme europeu.
Ouço gritos, ouço sirenes, ouço portas baterem. É uma desgraça eu ainda ter os meus sentidos. Ouço passos virem ao meu socorro. Malditos que não deixam os quase mortos em paz. Fecho os olhos, quero estar morta, mas a pulsação me entrega ao carrasco. Os heróis me salvam como num filme americano: sobrevivente, mutilada, estorvo.
Não, minha história termina aqui ou nunca mais terei chance de tão belo desfecho. E quanto à maldita morte que ainda não veio, espera que me leve esta noite para que eu não tenha que ir buscá-la. E buscarei, se preciso, assim que lembrar seu nome.

3 comentários:

Nelson Galvão disse...

Benedito João dos Santos Silva Beleleu, vulgo Nego Dito, Nego Dito

Paulo Cezar Filho disse...

muito, muito, muito, muito bom!!!

me empresta seu Valium???

Alessandro disse...

Forte drama, belo relato.

Mhel???, você é filha do Nick Cave da fase Murder Ballads?

O cenário do último filme europeu com tema de morte que eu vi era uma praia: O Tempo que Resta.

Uma morte na praia, como no clássico O Que Teria Acontecido à Baby Jane...

Beijão!