segunda-feira, 28 de maio de 2007

Em branco e cinza.


Pelos Infernos! Que tipo de coisa é essa? O relógio desperta. O susto é pequeno e eu já esperava a pancada na cabeça do teto do beliche. No andar de cima as roupas lavadas, e as sujas também. É manhã fria, segunda-feira. Parado no centro do quarto converso qualquer coisa em voz alta com as paredes e o guarda-roupa, pois não há nem ninguém que escute. Mais alguns minutos observando e tentando entender o que está acontecendo. Naturalmente sigo meus passos desnorteados pelos corredores e sala e cozinha, procurando algum objetivo, qualquer um, e acho que estou quase acordado. Caminho ao banho, mas antes as roupas. Uma gaveta bagunçada, pilhas de rádio, papéis, algum dinheiro, moedas, documentos, manuscritos, camisinhas, maços de cigarro vazios, propagandas que me entregaram nas ruas sobre dentistas, mães-de-santo, prostíbulos e bares, contas atrasadas, boletins de ocorrências policiais, um bibelô subtraído da casa de um chato, três agendas de duas décadas atrás, um sabonete e uma garrafinha, dessas de whisky, daquelas que os caras durões arracam infinitos tragos do bolso do casaco nos filmes em preto e branco quando recebem um fora daquelas maravilhosas loiras de lábios carnudos e vermelhos. A garrafa está vazia. Não há roupas por ali, deve ser a gaveta errada. As camisas talvez estejam na outra. São todas pretas, assim como as calças. Meus sapatos e meias também o são, e se não fossem teriam cor de pés pisados. Demoro um pouco a escolher o traje, fico em dúvida sobre qual usar... ou talvez esteja dormindo novamente. Às segundas-feiras prefiro usar preto e não conversar com ninguém, a não ser as paredes e o guarda-roupas e o chuveiro. O banho gelado não é culpa da eletricidade, outro dia uma garota estourou essa coisa. Não era loira, mas ruiva e tinha os lábios vermelhos e carnudos. De qualquer forma, era manhã, e eu não queria mais nada com ela e a desgraçada estourou meu chuveiro. Mandei-a embora Logo!, Desgraçada!, Não me apareça mais com essa sua cara por aqui!. E agora eu grito com o chuveiro, com as paredes, com o pequeno armário da velha escova de dentes velhos, com a água gelada e com a segunda-feira e até pulo de tanta raiva e frio e, Que droga!, esqueci a desgraça do sabonete na gaveta outra vez. Esse tipo de coisa talvez tenha seu lado bom... telvez eu saia iluminado deste banho gelado... Talvez n'outro dia. Preencho meus bolsos com identificações, chaves, lembretes, talvez sobre alguma grana pra tomar alguns tragos mais tarde, e quase enfio meu café da manhã no bolso também, considero que com essa hora de viagem chegarei atrasado no expediente, outra vez, jogo os três comprimidos na boca e um gole de água direto da torneira, está feito o desjejum, agora só na janta. Estou saindo e ouço o despertador novamente. Olho pro relógio de ponteiros na parede que, aquele sim, nunca mente. A eletricidade deve ter cambaleado durante a madrugada, desregulou meu digital da sharp. Falta apenas uma hora e meia pra acordar. As paredes, o guarda-roupas, o armário, o chuveiro, nenhum deles avisou. Eu com uma hora e meia sobrando na vida, que no sono não vale nada. O digital, da janela do quarto vai morrer no telhado do vizinho. Sento no sofá e olho pra tv desligada, ali estou mais cinza. Amanhã eu apareço. Faço mais falta aqui do que lá.

3 comentários:

Paulo Cezar Filho disse...

Andou aprontando alguma com Amélie Poulain, caro amigo?

DADO disse...

VC escreve irreverentemente e bem!
Muito interessante mesmo!
autentico, moderno e descolado!

Peterson disse...

E AE RAFA COMO SEMPRE BRILHANTE NAS PALAVRAS...ASSIM COMO NA MUSICA!!!!
ADORO LER O Q VC ESCREVE!!!
FALO MANINHO E SAUDADES DE VC !!!