terça-feira, 29 de maio de 2007

Confissões Ferroviárias

Já fui surfista de trem, saca a minha testa? Foram as mesmas cabeçadas no mesmo fio que me detesta.
Já fui o velho espancado ao entrar no vagão lotado espremido. Fui o bilhete nas mãos: molhado, amassado e vencido.
Na bilheteria assaltada, eu fui a catraca pulada e a pomba assassinada nos trilhos. Já fui trilhos e sim! Todas aquelas guimbas foram atiradas em mim.
E de pensar que eu fui a porta sempre aberta do vagão, mas por distração, fui a maldita crianca que caiu no vagão, que na disputa dos assentos, na violência, ninguém notou sua ausência.
Eu quis ser o grito! Do vendedor arretado, do crente alienado, do punk aflito. A baldeação capaz de mudar o destino. Mas fui ser as balas de goma nas mãos do menino. E ser o doce desse menino não foi de todo um mal.
Pois é, eu já fui cinco por um Real.
Fui o chapéu que voou com o vento do trem que passou. Mas fui também a certeza de que ele não parou porque não era o meu trem.
Fui quem embarcou primeiro e fui até o fim da linha. Fui a ilusão que eu tinha de nunca ser passageiro.
Já fui a espera do trem derradeiro que me levasse embora. Fui! Não sou mais agora.
Quando ele passa eu já não pego, mas a viagem continua. E na verdade, nua e crua, eu sou a bagagem que carrego.
Sou a paisagem que vier, a miragem de uma mulher qualquer que abandona a estação, cantarola uma canção...
E vai a pé!

2 comentários:

Paulo Cezar Filho disse...

Bela estréia...vamos pra estratosfera???

Leandro Borges Pereira disse...

Muito bem caros amigos acho que esteja um pouco frio por lá! Prefiro o Nucleo da Terra. É um exelente texto.