
quinta-feira, 31 de maio de 2007
Dois textos passados: Jazz I e Jazz.

Com o Danúbio aos pés

estar fora de si
noutro lugar
praga, bratislava, bucareste
transilvânia dos pensamentos
vampiros, não suguem mais
a poesia impossível de ser copiada
há um odor de morte naquele canto
necessário um enxerto de vida
o caos
são paulo new york tokio
paris berlim
os rios todos
reno tejo sena danúbio
paraná são francisco
tudo flui, tudo passa
mas um,
tudo que um quer é...
permanecer.
Ranking de Maio das Drogas Mais Consumidas na Patolândia:
49º - benzedrina
48º - cafeína
47º - prozac
46º - silicone
45º - cola de sapateiro
44º - álcool
43º - glicose
42º - heroína
41º - benzina
40º - esmalte
39º - acetona
38º - diazepan
37º - energético
36º - sintético
35º - ecstasy
34º - ácido
33º - antiácido
32º - pastel de feira
31º - acarajé
30º - democratas
29º - paris hilton
28º - crack
27º - papa
26º - bispo
25º - cisto
24º - misto
23º - hóstia
22º - pepsi-cola
21º - morfina
20º - lorax
19º - cocaína
18º - sabor artificial
17º - caça níquel
16º - testosterona
15º - coca-cola
14º - dramin
13º - churrasco
12º - hot dog
11º - pão com ovo
10º - colírio ciclopédico
9º - superficial
8º - virtual
7º - cibernético
6º - enlatados
5º - nicotina
4º - deus e o diabo na terra do sol
3º - gordura trans
2º - telenovela
1º - monóxido de carbono
quarta-feira, 30 de maio de 2007
Le nom de la mort
Aqui jaz meu corpo ainda vivo, num quarto de hotel. O sangue escorre na memória das últimas horas. Sinto seu gosto na garganta, sufoca-me. Mas estou sem forças para morrer.
Eu poderia ter clamado piedade, um tiro de misericórdia. Mas a arma que me cala é arma branca, como era branca a pele do meu seio que vejo trucidado.
Vinte e tantas primaveras e acho que a morte já me vem tardia. Uma vida sem regras termina cedo. É selada com sangue. Faz parte do jogo daqueles que teimam em viver. Não reclamo, eu quis assim. Preferi as noites em claro à claridade do dia. Quis o copo, a fumaça, o risco. Abdiquei do direito à saúde, à morte natural.
Sempre temi a morte natural, deve ser horrível! Sair da vida com ordem de despejo, como se o próprio universo já não suportasse sua presença. O fim, durante o sono, indolor, sem explicações, foi feito para os fracos. Eu bem sei o que posso suportar. Não verei filhos crescidos, nem netos, nem viverei o suficiente para ser um estorvo. E ainda assim, serei lembrada.
Sinto dor, mas não quero gritar. Queria perder a consciência, mas algo me mantém lúcida para o que há de vir. Todo sangue do meu corpo já se perdeu e a morte não vem. Não vejo anjos, não vejo deus, não vejo o filme da minha vida, nem tenho calafrios, apenas dor.
Ele parecia tão gentil...
Nunca se sabe quando o escolhido para romper sua história estará presente. Eu nem percebi. Sempre confiei naqueles com quem dividi a mesma cama. Pareciam que quando despidos, não havia o que esconder, tornavam-se homens, nada mais.
Hoje não foi diferente, quando vi o punhal e seus olhos me perfurando, tudo que senti foi calor. Um calor de quem se entusiasma diante da novidade. Não consigo lembrar seu nome. Segurou meus cabelos com toda sua ira e mordeu meus lábios, foi um beijo. Meu último beijo.
– Se queres tirar minha vida, que saibas fazer com classe! – intimei, ainda sorrindo, ao que parecia ser um jogo. Era um jogo. Mas o primeiro golpe mostrou que não havia regras.
Sem regras, como toda a minha vida.
Senti a dor do meu seio rasgado e caí. Não pedi socorro, não chorei. Não quis recusar a morte, gentilmente oferecida. Não lembro seu nome e até sua imagem surge distorcida.
Penetrou-me bruscamente, como se não bastasse minha dor. Quando senti meu ventre invadido, esqueci por um instante que do meu peito jorrava sangue e gozei do meu último prazer. Os prazeres da carne que precede o fim é privilégio de poucas. Gritei e só fiz isso porque senti a excitação que meu pânico lhe causava. Não decepcionei. Ainda sinto o forte cheiro do seu corpo, eu só queria lembrar seu nome.
Vestiu-se calmamente, enquanto o que de mim sobrava rastejava pelo quarto. Pensei que ouviria explicações, mas não disse uma só palavra. Foi embora, não olhou para trás.
Premiada com a tragédia, serei notícia. Alguns amigos darão depoimentos e citarão belas palavras em meu enterro.
Com que foto minha estamparão os jornais de amanhã? Espero que com a minha preferida, de um tempo que parecia feliz.
Não sinto mais meu corpo, está tudo dormente. E minha cabeça não adormece. A morte não veio. A diária venceu. E eu não quero ser encontrada com vida. Quero a morte solitária num quarto de hotel como num filme europeu.
Ouço gritos, ouço sirenes, ouço portas baterem. É uma desgraça eu ainda ter os meus sentidos. Ouço passos virem ao meu socorro. Malditos que não deixam os quase mortos em paz. Fecho os olhos, quero estar morta, mas a pulsação me entrega ao carrasco. Os heróis me salvam como num filme americano: sobrevivente, mutilada, estorvo.
Não, minha história termina aqui ou nunca mais terei chance de tão belo desfecho. E quanto à maldita morte que ainda não veio, espera que me leve esta noite para que eu não tenha que ir buscá-la. E buscarei, se preciso, assim que lembrar seu nome.
Verso de Postal...
seja você um dedicado ou um desleixado
esteja você tomado de toda a apatia do mundo
ou coberto da mais terna loucura & certeza
que não te falte nunca as flores (mesmo as colhidas)
e que a candura se manifeste todos os dias nos quintais da sua rotina (sempre mutável)
que o sorriso brote fácil e espontâneo em seu rosto
e que os seus amigos estejam sempre por perto
prontos para oferecer ombros, mãos, abraços, cervejas, cigarros
e que você também esteja pronto...sempre
pois a vida é muitas vezes incerta e injusta
mas compete a você (e a mais ninguém) escolher a intensidade da sua vertigem
nesses giros incertos, desvios concretos e fugas.
Os Três Acordes do Blues...
estendendo seus acordes por toda a paisagem de ontem
minha cabeça martela a parede
desse seu intransponível sono de concreto
minhas palavras não te perfuram a carne
como a agulha perfura o seu braço
tem um cara dedilhando uma guitarra desplugada na varanda
onde o meu coração tantas vezes tombou bêbado & confuso
pintei um sol na parede do quarto
mas só passei pra dizer que te amo...
terça-feira, 29 de maio de 2007
Confissões Ferroviárias
Já fui o velho espancado ao entrar no vagão lotado espremido. Fui o bilhete nas mãos: molhado, amassado e vencido.
Na bilheteria assaltada, eu fui a catraca pulada e a pomba assassinada nos trilhos. Já fui trilhos e sim! Todas aquelas guimbas foram atiradas em mim.
E de pensar que eu fui a porta sempre aberta do vagão, mas por distração, fui a maldita crianca que caiu no vagão, que na disputa dos assentos, na violência, ninguém notou sua ausência.
Eu quis ser o grito! Do vendedor arretado, do crente alienado, do punk aflito. A baldeação capaz de mudar o destino. Mas fui ser as balas de goma nas mãos do menino. E ser o doce desse menino não foi de todo um mal.
Pois é, eu já fui cinco por um Real.
Fui o chapéu que voou com o vento do trem que passou. Mas fui também a certeza de que ele não parou porque não era o meu trem.
Fui quem embarcou primeiro e fui até o fim da linha. Fui a ilusão que eu tinha de nunca ser passageiro.
Já fui a espera do trem derradeiro que me levasse embora. Fui! Não sou mais agora.
Quando ele passa eu já não pego, mas a viagem continua. E na verdade, nua e crua, eu sou a bagagem que carrego.
Sou a paisagem que vier, a miragem de uma mulher qualquer que abandona a estação, cantarola uma canção...
E vai a pé!
CORPORAÇÃO ROCK AND ROLL
O baixista (com um cigarro no canto da boca) ainda tocava o seu instrumento – era o último. O baterista tinha caído fora meia hora antes com uma groupie e seus braços marcados.
O empresário comentou preocupado com um de seus assessores:
- Esse maldito filho duma cadela nunca mais vai conseguir compor uma linha.
- Temos uma sala cheia de compositores de borracha. - O tal assessorzinho-de-merda tentou tranqüiliza-lo.
- Desligue a chave geral! - Ordenou o comandante mor da gravadora gigantescamente multinacionalizada
E as luzes foram apagadas e a multidão incontrolável subiu no palco e invadiu os camarins enquanto o baixista ainda tocava (a essa altura o cigarro da sua boca já havia apagado).
O guitarrista subia nas caixas de som e saltava de cabeça no chão.
- Nós queremos canções de amor!
- Nós queremos canções de amor!
- Nós queremos canções de amor!
Cinco ou seis menininhas gritavam horrorizadas esvaziando os extintores enquanto yuppies japoneses disfarçados de hells angels botavam fogo nas cortinas.
A policia chegou logo e levou cerca de vinte pessoas em cana, os outros saíram em fila indiana e foram conduzidos até a Fábrica de Arames Farpados.
O empresário ligou as sete da manhã para a casa de espetáculos perguntando pela sua banda.
- Tem um cara lá no palco estirado como se estivesse morto. - Comentou a atendente.
O corpo de bombeiros e toda a comitiva da MTV apareceram meia hora depois com holofotes e máquinas fotográficas imensas à procura de informações do Último-Grande-Idolo-Adolescente-Ou-Algo-Assim.
NOTA DA GRAVADORA PARA A IMPRENSA:
Lamentamos informar senhores, mas o sujeitinho amalucado não sofreu nenhuma overdose e tampouco tentou suicídio. Não passa de uma gripe repentina, já tomamos as devidas precauções com antibióticos e analgésicos, portanto fiquem tranqüilos, embora vocês não tenham uma grande manchete para o seu jornalzinho-de-meia-
tijela – parece que continuaremos com o velho entretenimento para nossas crianças acéfalas nas próximas semanas.
Atenciosamente,
Senhor Pastiche.
RELATOS DE UM ROCK STAR APOSENTADO CERCA DE VINTE ANOS MAIS TARDE:
- Eu me lembro bem desses encontros, ficávamos horas e horas conversando e fumando baseado, era um atrás do outro e às vezes pintava um troço desconhecido e a gente entrava de cabeça, não tínhamos muita coisa a perder (pelo menos era o que a gente pensava), foi uma grande época, liberdade era o nosso lema, quebrávamos televisores e telefones públicos, espancávamos as groupies e depois dávamos uma grana preta para que elas não abrissem o bico, evidentemente que em certas ocasiões isso não era possível de modo que encarávamos uma ou duas semanas com insuportáveis crises de abstinência atrás das grades até que o nosso empresário aparecesse do nada com uma mala cheia de verbos e tirasse seus-pequenos-moleques-delinquentes dali.
segunda-feira, 28 de maio de 2007
Em branco e cinza.

Leve.

Horizonte
Horizonte
Mônica olha para um horizonte que lhe reserva surpresas.
Vê o azul do céu que se impõe ao cinza dos grandes prédios da cidade que escolhe agora. É um sonho, mas é verdade também.
Ela tem planos e uma idéia incompleta, porém muito excitante, do que fazer. O mais valioso do que carrega consigo é a vontade de não se repetir. É isso. Não voltará a ser a mesma. Jamais, jamais.
Por isso, dá adeus a antigas músicas, vícios que a derrotaram, virtudes vencidas, gente que a acompanhou de batalha em batalha, amores que não foram e, sobretudo, àquela outra Mônica que deixou no quarto escuro.
Olha para um horizonte que lhe reserva surpresas.
Ela não quer virar estátua de sal. Agora só olha para a frente.
Memorial da rua sem saída.
Fiquei te esperando enquanto milhares de anjos sujos voavam em volta da luz de um poste que eu havia erguido para me servir de estrela em outras noites, bem frias....
Folhas de alface fossilizadas no fundo da geladeira com a porta aberta – congelando,
Noite morna como nunca imaginada – não há nada aqui fora, não há nada lá dentro.
Um velho tenta varrer toda a ferrugem da calçada -
Carros azuis em tons foscos estacionando fumaça & mulheres de silicone e seus filhos com cérebros de fliperama....
Enquanto invento mil estórias falsas de amor para serem publicadas em folhetins de faculdades branco-e-pretas-sem-graças com seus cursos de advocacia e o diabo à quatro.
A noite cai como se fosse tinta preta sobre nossas risadas amarelas, e os prédios abrem seus olhos mortos animados por vacilantes lâmpadas chinesas atrás de cortinas coloridas com estampas tropicais e coisas sem nexo assim....
O dia deslizou ralo abaixo e a geladeira escorreu pelo chão,
Tentei esticar minha língua e matar a sede e matar a saudade e matar o tempo e matar e matar e matar... até (quem sabe) curtir a minha vida mais ou menos.
Não há resquício de otimismo que saia de dentro da minha boca bocejante,
Nas ruas – gente de todos os semitipos com seus dedos de controle remoto - num patético vai-e-vem inútil... como se tudo fosse tão sério e urgente
E eu que pensava que escrever era ócio.
Antes mesmo da passagem de som...
...dois
...três -
...testando.
...um
...dois
...três -
...testando.
...ssssssom - sssssom - sssssom - ssssssom - ssssssom.
...um
...dois.