quinta-feira, 2 de agosto de 2007


Pequena questão reflexiva sobre a impossibilidade da plenitude individual em oposição à sociedade, sem a necessidade de seguir ou copiar modelos baseados em estorietas novelísticas ou modelos padrões e consolidados de vida em si.


Num dia desses, desses normais, certo fulano, o Rapaz, caminhava, ou melhor, espremia-se em pé num dos vagões do metrô, em direção ao seu local de trabalho. Ia sem pressa, estava adiantado, pois “caíra da cama”, como dizem por aí, depois de sonhar um sonho estranho que mal lembrava após o café da manhã. Café mal tomado, por sinal, preto-forte e cigarro pra matar a fome.


Trocou de linha do metrô com a cabeça baixa e sono, na mesma linha da massa cinzenta que o rodeava, seguindo corredores e escadas rolantes assim como bois que caminham ao abate sem nada saber ou mugir.


Não era o abate ainda, e o novo vagão até que estava menos cheio. Encostado, o Rapaz fazia cara de parede enquanto passeavam as estações. Entra na história, sem avisar, uma fulana que entrou neste vagão numa dessas estações que passeavam: a Moça.


A Moça havia acordado cedo, não por caprichos de sonhos agitados, mas sim porque tinha consulta marcada num dos agiotas-mecânicos de sua saúde. Além da consulta, tinha sono também. Aquele sono ingrato de noites mal dormidas provocadas por festas e exageros alcoólicos que seus pais nem sabiam e patrocinavam, na falta de um emprego melhor. Pensava se faria algum estrago ao exame o desjejum farto feito à revelia das recomendações que o doutor lhe dera.


Mesmo em tão matutino horário andava caprichada, até com óculos escuros, nos túneis mal iluminados do metrô, que era pra esconder suas olheiras indisfarçáveis dos olhares alheios. Não ligava pra nada por ali e estava mesmo chateada dos maus humores da manhã até o momento em que entrou nas linhas daquele Rapaz.


A Moça, pendurada nos varais de apoio do vagão, olhava e examinava todas as dezenas de rostos que ali estavam, interrompendo tal exercício apenas quando encontrou os olhos do Rapaz, fixando-se por ali mesmo. Ele nada percebeu antes que ela recolhesse da face os óculos, permitindo que os olhares se cruzassem. A primeira coisa que reparou foram as olheiras e talvez nada mais, e ela continuava ali, fixa, sem pensar nem saber qual tipo de curiosidade ou sensação a prendia.


Conste-se que não havia o mínimo vestígio de “amor à primeira vista”, como nos filmes acontece, nem sequer alguma identificação entre eles. Simplesmente estavam ali, sem nenhuma explicação lógica, como em tudo na vida.


Primeiro foi ela que pulou dos varais, caminhou e colocou-se à frente do Rapaz que, sem surpresa, parecia já esperar tal jogada. Ele, o único movimento que fez foi observar os lábios da moça, detalhando sua textura e seu formato e como pareciam daqueles lábios bem cuidados que transformavam mentiras em verdades e homens em escravos.

Como se não houvesse volta, os dois se beijaram. Apenas isto antes de chegarem à estação que a moça descia.


Ela saiu ainda com os olhos fechados enquanto ele, imóvel, a seguia com os seus. Já na plataforma, voltou-se ao trem e já sentenciava, triste, que aquilo tudo era coisa de caso passageiro e encerrado, enquanto observava o Rapaz. De dentro, como se fosse num século inteiro que tocava o sinal que alerta do fechamento das portas, o Rapaz pensava nas conseqüências de qualquer movimento.


No último segundo, como dizem por aí, o Rapaz arremessou sua maleta na porta do trem, impedindo-a de fechar, e caminhou lentamente até a plataforma para depois retirá-la, à maleta, e acompanhou a Moça escadas rolantes acima.


O problema é que a porta não fechou. O operador do trem tentou, os funcionários da estação também tentaram e até os passageiros, mas ninguém conseguiu fechar aquela porta. Depois de sete minutos os passageiros foram convidados a sair e esperar o próximo carro e ficaram mais atrasados e mais irritados que o de costume. Nos locais de trabalho dos passageiros, os Patrões também ficaram mais irritados e mais impertinentes do que o de costume, por conta dos atrasos. Os do metrô que não tinham patrões perderam entrevistas de emprego, consultas médicas ou apenas a hora. Os passageiros que dormiam ou que estavam nos outros vagões e os dos outros trens, que não viram o que aconteceu, ficaram mais irritados do que aqueles que viram, e por falta de alguém pra cuspir todas as culpas, xingaram o presidente, o governador, o prefeito e a falta de atitude das “Pessoas, as velhas “Pessoas” que nunca fazem nada, os mesmos subterfúgios de sempre. Enfim, o dia seria outro sem essa história.


Imagina só o tamanho do colapso que aconteceria a este esquema de vida urbana ao qual estamos acostumados, caso os exemplares cidadãos que nos cercam resolvessem seguir os conselhos dos sonhos e desejos que lhes ocorrem todos os dias e que, na grande maioria das vezes, morrem nos travesseiros e em problemas psicológicos e de convivência, facilmente explicáveis por meros psicanalistas!


O autor, particularmente, gostaria de ver algo do tipo.

6 comentários:

Alessandro disse...

Gente, eu até preferia comentar o texto, mas venho é falar de outra coisa:

Com a greve de metrô, eu não tenho ido trabalhar e, também, receio que não poderei ir ao Gruta.

Por outro lado, até quarta, a agência realmente tomou meu tempo (fdps, eles adivinharam!) de forma que não pude trabalhar no layout ainda. Aqui em casa, impossível, porque continuo não podendo instalar os programas necessários. Assistência? Depois do pagamento, é.

Já que estou nessa maré de azar, rezem por mim. Vocês sabem... só Jesus Cristo salva!

Ah ah ah!

Beijos e abraços!

Mhel??? disse...

se eu tivesse telefone, ligaria pra vcs pra saber quem vai lá hoje.
maldita telefonica que não perdoa 3 continhas atrasadas...

Alessandro disse...

Como se você não tivesse coisa mais importante pra cuidar, a não ser pagar contas...

ninguem disse...

maravilhoso

Paulo Cezar Filho disse...

Robert Crumb disse, certa vez, que se colocasse em prática todas as suas fantasias sexuais (e aqui quero expandir esse horizonte bem além - embora Freud, suspeito, diria tratar-se da mesma coisa) provavelmente estaria preso. Temos todos um pouco de Robert Crumb, concluo. Alguns menos, em relação à coragem.

Alessandra Queiroz disse...

Paulinho,adorei o que vc escreveu! Ainda Falta muita coragem!
biseaus