quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

O ESCRITOR E A SUA COLEÇÃO DE CLICHÊS

Havia uma verdadeira procissão deles reunidos na sua frente, pararam todos encarando o escritor como se ele fosse um chimpanzé albino. Estavam amontoados por todo o tapete da sala, alguns subiram escalando as poltronas e agora se aglomeravam também perto dos seus dedos, junto a máquina. Parou por um instante, pouco antes de dar uma ultima espiada pela janela, costumava olhar na direção da estrada e isso muitas vezes servia de inspiração, fosse um carro que aparecia, como se surgisse do nada, por detrás da extensa plantação de milho, voltando a desaparecer na curva, logo depois do muro branco do cemitério, fosse alguma criança vizinha pulando corda ou moleques da cidade pichando cercas e atirando em garrafas e patos. Só que dessa vez não vinha nada, ninguém. A estrada e o campo estavam igualmente desertos e nem sinal de inseto algum que fosse. Olhou outra vez para eles, continuavam a encara-lo como se estivesse preste a contar o final da ultima piada, a ultima linha do ultimo capitulo. Elaborou um rápido plano de fuga, saltando por cima da mesa e pulando pela janela, não morava mais no 4º andar de um prédio, sem riscos de acidentes, portanto. Olhou para suas pernas. Uma coleção daqueles pinos todos que brilhavam no escuro, por dentro da sua pele, e eram pinos de todas as cores, verdes fosforescentes, brancos, amarelos, vermelhos, a ultima palavra em tecnologia estética em Taiwan ou qualquer lugar assim. Desistiu do plano de fuga quando dois clichês de tamanho mediano pularam nas suas costas, escalando sua camisa molhada e desabotoada, até alcançarem seus ombros. Um era uma mulher de salto-alto, mini-saia e cigarro entre os dedos, grossos lábios vermelhos combinando com aqueles olhos chapados de pírulas abortivas e champanhe o outro era um conversível numa alto-estrada seguindo a caminho de uma praia mais ou menos como LA em mil novecentos e trinta e pouco, parecia meio velho e desfocado da paisagem local, mas seguia rápido como se a estrada fosse feita de trilhos – o conversível-locomotiva – pensou – guiado por um detetive qualquer com uma dose de obstinação e uma estória de crimes conjugais aparentemente perfeitos, ele, o detetive, como ela, a mulher de salto-alto, fumavam a mesma marca de cigarro e exceto por duas décadas e meia de diferença entre suas estórias, pareciam não ter grandes diferenças. Um outro se empoleirou na tecla no asterisco, e ficou lá, olhando para ele e rindo, como uma criança besta, se tratava de um moleque chinês percorrendo as ruas infestadas de ratos e figuras cabisbaixas cambaleantes pela Pequim de 57, usava roupas de tons escuros, bem neutros, como se quisesse permanecer escondido no meio da multidão e da fumaça urbana. Pulou de um lado para o outro, com uma fatia de peixe embaixo da camisa e duas batatas em cada uma das mãos enquanto os mercadores corriam na sua captura, munidos de facões gigantescos e reluzentes, embora meio-enferrujados – não vai ser fácil livrar-me desse – pensou o escritor. Apanhou então uma folha em branco e escreveu as primeiras palavras da primeira estória, tratava agora da mulher de salto-alto e mini-saia, parada na saída de um hotel cinco estrelas de alguma cidade mais ou menos paradisíaca e perigosa da costa oeste americana. Não era uma estória difícil – pensou – e no final ela morreria com um tiro de um mafioso local que depois teria o mesmo fim num confronto com dois policiais disfarçados de viciados. Pulou então para a estória seguinte, sem pausa. Só fez pegar outra folha e teve inicio a saga do detetive obstinado percorrendo uma estradinha que ziguezagueava as encostas de um litoral ainda inabitado pelas hordas de moradores sedentos por consumo de qualquer espécie. Antes de terminar a estória foi até a cozinha, encheu um grande copo com água gelada e antes de esvazia-lo olhou para a sala, para aquela multidão de clichês que esperavam pacientemente enquanto ele não vinha. Cada um tinha a sua particularidade, a sua estória para ser contada, conhecia todos de longa data e sabia que não sairiam de lá tão cedo. Escorreu a água pela cabeça e como se estivesse bêbado saiu porta fora respingando água por todo lado, antes de desabar inconsciente no tapete da sala, esmagando milhares de pequenas crianças ainda não muito bem nascidas. E enquanto perdia-se em paisagens lunares e coisas sem muito nexo, um moleque chinês pulou pela janela da sala correndo em direção a estradinha, carregava um estoque considerável de frutas e verduras frescas enroladas na camisa e nem teve o trabalho ou tempo de fechar a geladeira. A única coisa que deixou foi o rastro de uma estória ainda por acabar, enquanto um detetive e uma prostituta faziam uma festa particularmente estranha no quarto ao lado.

2 comentários:

Rafael Mafra disse...

Essa conversa aí não é clichê o suficiente pro meu gosto!

Continue escrevendo, seu porra!

Paulo Cezar Filho disse...

por falar em porra, achei do caralho suas homenagens ao velho safado.