Já andava feito louco pelas ruas do Planeta Ateu repetindo as mesmas frases, carregava um megafone, às vezes parava na porta de alguma fábrica ou colégio, qualquer prédio grande, cheio de salas de escritório, cheio de pessoas, esperava a hora em que elas iam chegando ou saindo em maior número, e lá estava ele gritando com seu megafone. Era conhecido como Joãozinho-Pé-de-Barro, pois nesse planeta, Deus era um conceito muito primitivo. - Somos todos feitos apenas de barro, deixa de ser besta Joãozinho. As pessoas viviam repetindo, e ele saia feito louco, batendo o pé em disparada e soltando palavrões. Era motivo de piada onde quer que fosse, e muita gente fingia creditar-lhe certa dose de confiança apenas para fazer-lhe troça pelas costas.
No Planeta Ateu apenas à três tipos de pessoas era dado o direito de acreditar em Deus, às crianças, aos loucos e aos idiotas, Joãozinho parecia uma mistura dos três, mas não estava nem aí para o apáticos, como ele mesmo dizia.
Um dia aconteceu, sabe-se lá em qual localidade exatamente, mas o fato é que Joãozinho-Pé-de-Barro arrumou uma esposa e essa mulher passou à seguir-lhe os passos, assim também foram os filhos, sete ao todo e todos crentes na existência de Deus, a essa altura do campeonato a família de Joãozinho era conhecida e de certa forma evitada em todo o planeta, porém com o passar do tempo, os filhos de Joãozinho foram crescendo, casando, os homens foram convencendo suas esposas, as mulheres convencendo seus maridos e a população de pessoas que acreditavam em Deus foi crescendo, crescendo, até que fundaram a primeira escola somente para pessoas que acreditavam em Deus, depois veio o primeiro hospital, a primeira vila, o clube, o partido político, certa eleição, ganharam, compraram votos, construíram templos, escadas que os levariam aos céus, mudaram por decreto o nome do Planeta Ateu para Planeta de Deus. Joãozinho ficou rico, muito rico, toda a família de Joãozinho prosperou, mudaram então o sistema para monarquia, Joãozinho agora era rei, presidente, conselheiro, tudo ao mesmo tempo, seus filhos tinham os cargos mais importantes, eram lideres de comunidades, falavam para multidões.
Certo dia, uma luz muito intensa surgiu no céu, todos ficaram a postos, exceto é claro, as pessoas que não acreditavam, e aquela luz foi chegando mais perto, cada vez mais perto, Joãozinho e todos os seus seguidores postaram-se emocionados em reverências à luz divina. Até que por fim chegou bem perto, parou, todos olharam, silêncio no planetinha...............................................
era um ônibus espacial, de dentro saiu uma menina de cabelo raspado e brinco no nariz e com um megafone gritou bem alto: ESSA NOITE TEM FESTA NO INFERNO, BEBIDA POR CONTA DO DIABO. E todos aqueles que não acreditavam subiram as escadas do ônibus espacial e deixaram o antigo Planeta Ateu, convertido agora, num chato e ditatorial Planeta de Deus. E logo depois o Planeta de Deus mergulhou numa sangrenta guerra entre as pessoas que acreditavam que Deus fosse verde e as pessoas que acreditavam que Deus fosse azul. Enquanto os loucos faziam festa no planeta ao lado, apelidado temporariamente de INFERNO OVER NIGHT.
sexta-feira, 13 de julho de 2007
terça-feira, 10 de julho de 2007
A COMIDA CHINESA MAL ASSOMBRADA
Tudo aconteceu naquele primeiro sábado de inverno, estava em casa com o meu irmão mais novo, já havíamos sido avisados de que os nossos pais só voltariam para casa na terça-feira pela manhã, estavam participando de um simpósio, eles passavam a maior parte do tempo viajando de um lado para o outro, eram representantes numa dessas empresas que trabalham naqueles esquemas furados de pirâmides, andavam empolgados que só vendo, até parece que eles é que eram as crianças da casa.
Deixa primeiro eu contar uma coisa, o meu nome é Sâmara, tenho doze anos e o Pedro, meu irmão, tem sete e parece um idiota, o que é bem comum para garotos dessa idade. Quando nossos pais não estavam em casa nos controlando, comíamos todo o tipo de porcarias que se possa imaginar, geralmente pedíamos hambúrguer no Fast King ou milk-shake no Red Bear, eu poderia passar um ano comendo esses troços todos e garanto que não me importaria nem um pouco. Acontece que naquele sábado a unidade do Red Bear que atendia o nosso bairro estava fechada para reforma e o numero do Fast King só dava ocupado, de manhã eu tinha juntado uma porção de correspondências da caixa do correio e no meio das correspondências tinha uma em particular que me chamou muito a atenção, era em papel jornal, branco e preto, falava sobre um tal restaurante de comida chinesa, entregavam em casa e tudo, o mais estranho era a foto de um armário daqueles horríveis, antigos, no canto direito do papel. Não liguei muito para esse detalhe, estava curiosa para provar uma das tais comidas chinesas que eu tinha ouvido falar em um programa de televisão duas semanas antes. Meu irmão estava na rua, então nem me importei se ele iria querer ou não, peguei o telefone e disquei o número. Uma voz muito estranha, de uma mulher, atendeu do outro lado, parecia que fazia eco, uma voz rouca, mecânica - tinham três opções de comida, macarrão-não-sei-com-o-quê, frango xadrez e salada com uma carne de nome estranho, acabei escolhendo o frango. Cerca de 10 minutos depois alguém bateu na porta dos fundos, achei estranho, eu estava na sala esperando a comida ou esperando que o meu irmão voltasse da rua, fui até a porta dos fundos pensando que fosse algum vizinho, olhei pela vidraça, um cara de gorro, baixinho, abraçado à um pacote enorme, vestia uma espécie de saia medieval, nem olhou para mim, apenas ficou ali com aquele embrulho estendido na minha direção, apanhei o pacote e levei até a mesa, quando virei novamente com o dinheiro da comida, ele simplesmente havia desaparecido, desci os cinco degraus da escadinha de madeira, olhei para todos os lados, nada. Tentei ligar para o restaurante, mas ninguém atendia, achei que já estivesse fechado, dobrei o dinheiro e guardei, esperando que pudesse pagar pela comida outro dia. Fui até a área da frente, havia alguns moleques na rua, mas nada do meu irmão. Voltei para a cozinha, e olha só, o mais estranho de tudo, quando eu cheguei lá, as duas caixinhas de comida chinesa estavam fora do pacote, abertas como se esperando para serem devoradas. Peguei primeiro o biscoito da sorte e quebrei na palma da mão, tinha um alfinete enferrujado dentro e um bilhete escrito: caixão quebra, morte enterra, desejo vem. Quando li isso fiquei com medo, tranquei a porta dos fundos, inspecionei o banheiro e a despensa, então escutei passos nos quartos lá em cima, chamei pelo meu irmão, ninguém respondeu, os passos continuaram, até que ouvi a porta do armário do quarto dos meus pais sendo aberta, rangiam e de repente ventou muito, embora as janelas e portas estivessem fechadas. Não sou a pessoa mais corajosa do mundo, talvez se fosse de noite eu saísse correndo em direção à rua, mas talvez por ser dia, e um dia muito bonito por sinal, subi para ver o barulho, lá em cima cheirava à vela, defumador, qualquer coisa assim, a porta do armário estava fechada, girei o trinco, abriu devagar, rangendo, me afastei, as roupas estavam todas reviradas, alguns cabides quebrados, desci correndo e joguei a comida fora, quero dizer, joguei as duas caixas ainda fechadas no lixo. Levei para fora, foi quando vi o meu irmão subindo a rua, pensei em contar para ele, mas é quase certo que ele não acreditaria e o pior de tudo, ainda iria contar para os meus pais que pensariam que eu fosse maluca e todas essas estórias bobas de família.
Meus pais chegam essa noite, estou no quarto agora e o meu irmão já está dormindo, ainda guardo o bilhete que veio no biscoito da sorte chinês, às vezes tenho a impressão de que aquele baixinho anda lá fora vigiando o que acontece aqui dentro, talvez tenha se sentido ofendido por eu ter jogado fora o frango xadrez, mas sabe-se lá o que tinha dentro daquelas caixas, minhocas? Cobras? Aranhas? Escorpiões? Não sei, deve ter sido só impressão. Tentei ligar para o restaurante, mas a mulher que atendeu disse que lá funciona um escritório de advocacia e nunca ouviu falar de restaurante chinês na nossa cidade, o folheto não tinha endereço, só o telefone. Arrumei a bagunça do armário naquele mesmo dia, não encontrei nada de estranho, exceto é claro, os cabides quebrados que joguei fora. De qualquer forma, foi só um susto, vou ver se consigo dormir essa noite. Ouço batidas na porta dos fundos lá embaixo agora, deve ser algum vizinho, o idiota do meu irmão continua dormindo, depois eu conto o resto da estória, vou descer para ver quem é. Já volto.
Deixa primeiro eu contar uma coisa, o meu nome é Sâmara, tenho doze anos e o Pedro, meu irmão, tem sete e parece um idiota, o que é bem comum para garotos dessa idade. Quando nossos pais não estavam em casa nos controlando, comíamos todo o tipo de porcarias que se possa imaginar, geralmente pedíamos hambúrguer no Fast King ou milk-shake no Red Bear, eu poderia passar um ano comendo esses troços todos e garanto que não me importaria nem um pouco. Acontece que naquele sábado a unidade do Red Bear que atendia o nosso bairro estava fechada para reforma e o numero do Fast King só dava ocupado, de manhã eu tinha juntado uma porção de correspondências da caixa do correio e no meio das correspondências tinha uma em particular que me chamou muito a atenção, era em papel jornal, branco e preto, falava sobre um tal restaurante de comida chinesa, entregavam em casa e tudo, o mais estranho era a foto de um armário daqueles horríveis, antigos, no canto direito do papel. Não liguei muito para esse detalhe, estava curiosa para provar uma das tais comidas chinesas que eu tinha ouvido falar em um programa de televisão duas semanas antes. Meu irmão estava na rua, então nem me importei se ele iria querer ou não, peguei o telefone e disquei o número. Uma voz muito estranha, de uma mulher, atendeu do outro lado, parecia que fazia eco, uma voz rouca, mecânica - tinham três opções de comida, macarrão-não-sei-com-o-quê, frango xadrez e salada com uma carne de nome estranho, acabei escolhendo o frango. Cerca de 10 minutos depois alguém bateu na porta dos fundos, achei estranho, eu estava na sala esperando a comida ou esperando que o meu irmão voltasse da rua, fui até a porta dos fundos pensando que fosse algum vizinho, olhei pela vidraça, um cara de gorro, baixinho, abraçado à um pacote enorme, vestia uma espécie de saia medieval, nem olhou para mim, apenas ficou ali com aquele embrulho estendido na minha direção, apanhei o pacote e levei até a mesa, quando virei novamente com o dinheiro da comida, ele simplesmente havia desaparecido, desci os cinco degraus da escadinha de madeira, olhei para todos os lados, nada. Tentei ligar para o restaurante, mas ninguém atendia, achei que já estivesse fechado, dobrei o dinheiro e guardei, esperando que pudesse pagar pela comida outro dia. Fui até a área da frente, havia alguns moleques na rua, mas nada do meu irmão. Voltei para a cozinha, e olha só, o mais estranho de tudo, quando eu cheguei lá, as duas caixinhas de comida chinesa estavam fora do pacote, abertas como se esperando para serem devoradas. Peguei primeiro o biscoito da sorte e quebrei na palma da mão, tinha um alfinete enferrujado dentro e um bilhete escrito: caixão quebra, morte enterra, desejo vem. Quando li isso fiquei com medo, tranquei a porta dos fundos, inspecionei o banheiro e a despensa, então escutei passos nos quartos lá em cima, chamei pelo meu irmão, ninguém respondeu, os passos continuaram, até que ouvi a porta do armário do quarto dos meus pais sendo aberta, rangiam e de repente ventou muito, embora as janelas e portas estivessem fechadas. Não sou a pessoa mais corajosa do mundo, talvez se fosse de noite eu saísse correndo em direção à rua, mas talvez por ser dia, e um dia muito bonito por sinal, subi para ver o barulho, lá em cima cheirava à vela, defumador, qualquer coisa assim, a porta do armário estava fechada, girei o trinco, abriu devagar, rangendo, me afastei, as roupas estavam todas reviradas, alguns cabides quebrados, desci correndo e joguei a comida fora, quero dizer, joguei as duas caixas ainda fechadas no lixo. Levei para fora, foi quando vi o meu irmão subindo a rua, pensei em contar para ele, mas é quase certo que ele não acreditaria e o pior de tudo, ainda iria contar para os meus pais que pensariam que eu fosse maluca e todas essas estórias bobas de família.
Meus pais chegam essa noite, estou no quarto agora e o meu irmão já está dormindo, ainda guardo o bilhete que veio no biscoito da sorte chinês, às vezes tenho a impressão de que aquele baixinho anda lá fora vigiando o que acontece aqui dentro, talvez tenha se sentido ofendido por eu ter jogado fora o frango xadrez, mas sabe-se lá o que tinha dentro daquelas caixas, minhocas? Cobras? Aranhas? Escorpiões? Não sei, deve ter sido só impressão. Tentei ligar para o restaurante, mas a mulher que atendeu disse que lá funciona um escritório de advocacia e nunca ouviu falar de restaurante chinês na nossa cidade, o folheto não tinha endereço, só o telefone. Arrumei a bagunça do armário naquele mesmo dia, não encontrei nada de estranho, exceto é claro, os cabides quebrados que joguei fora. De qualquer forma, foi só um susto, vou ver se consigo dormir essa noite. Ouço batidas na porta dos fundos lá embaixo agora, deve ser algum vizinho, o idiota do meu irmão continua dormindo, depois eu conto o resto da estória, vou descer para ver quem é. Já volto.
sábado, 7 de julho de 2007
A necropsia de todas as Alices

Dezenove vitelas de mercenário
Carbonizados irão saborear o peru do dia de ação de graças em pedaços espalhados em sacos pretos de plásticos
Na roleta da resistência os premiados com a loteria de explosivos pelos poros se limpam para oração
Meca sagrada e não mais Jerusalém faz os fiéis se submeter à devoção ao misericordioso de fumaça para os peles vermelhas ?
quinta-feira, 5 de julho de 2007
Dois textos velhos.
O Sanguinolento
Ele achava uma besteira toda essa história de pistolas e munições.
Vanderson queria ser bandido, mas não gostava de armas de fogo.
Era um sonho louco. Uma coisa fora do normal.
"Bandido nunca foi profissão", dizia sua mulher.
Ele dizia que sim. Nada digna, mas se fosse por isso, políticos, padres e agiotas também deveriam ser punidos pela lei.
"Abençoadas sejam as leis", ele sempre dizia.
Gostava mesmo delas.
Respeitava todas quando não estava em serviço.
Mas, voltando ao assunto: ele não gostava de fogo.
Gostava mesmo era de facas.
Pontudas e afiadas. Preparava com carinho a faca de cada dia.
Amava todas de sua coleção.
Gostava do sangue escorrendo pelo fio de corte.
Quando respingava em sua roupa e encharcava suas mãos de sangue ia ao êxtase.
Sempre calmo. Sempre frio.
Vanderson queria ser bandido.
Morreu como açougueiro.
***
E você, quer o quê?
Queria dormir mais e acordou.
Ia ficar deitado na cama, mas levantou.
Não quis tomar café, mas estava sem açucar.
Dessa vez ia de carro, mas a greve dos ônibus o atrasou.
Ia pedir as contas logo de manhã, mas trabalhou.
Pediu à tarde, mas isso não é nada relevante num escritório de contabilidade.
Iria se demitir ao fim do dia, mas fez as contas e viu que não podia.
Na volta quis ir de metrô, mas os ônibus engarrafados sem aumento de salário o incomodaram mais uma vez.
Quando chegou em casa pensou em fugir.
Pena que já estava em casa.
Ia aproveitar pra comer salada: emagrecer.
E queria depois uma imensa sobremesa: prazer.
Comeu apenas um pacote de macarrão instantâneo e tomou uma com limão porque não tinha vinho.
Queria dormir cedo, mas tinha jogo na televisão.
Queria assistir tudo, mas adormeceu no intervalo.
Quando acordou com o filme da madrugada quis morrer, mas só dormiu.
Em seus sonhos ele quis tudo e conseguiu.
E logo acordou do pesadelo.
Queria esquecer de tudo, mas pensou na vida.
Queria desistir de tudo...
...desistiu!
Ele achava uma besteira toda essa história de pistolas e munições.
Vanderson queria ser bandido, mas não gostava de armas de fogo.
Era um sonho louco. Uma coisa fora do normal.
"Bandido nunca foi profissão", dizia sua mulher.
Ele dizia que sim. Nada digna, mas se fosse por isso, políticos, padres e agiotas também deveriam ser punidos pela lei.
"Abençoadas sejam as leis", ele sempre dizia.
Gostava mesmo delas.
Respeitava todas quando não estava em serviço.
Mas, voltando ao assunto: ele não gostava de fogo.
Gostava mesmo era de facas.
Pontudas e afiadas. Preparava com carinho a faca de cada dia.
Amava todas de sua coleção.
Gostava do sangue escorrendo pelo fio de corte.
Quando respingava em sua roupa e encharcava suas mãos de sangue ia ao êxtase.
Sempre calmo. Sempre frio.
Vanderson queria ser bandido.
Morreu como açougueiro.
***
E você, quer o quê?
Queria dormir mais e acordou.
Ia ficar deitado na cama, mas levantou.
Não quis tomar café, mas estava sem açucar.
Dessa vez ia de carro, mas a greve dos ônibus o atrasou.
Ia pedir as contas logo de manhã, mas trabalhou.
Pediu à tarde, mas isso não é nada relevante num escritório de contabilidade.
Iria se demitir ao fim do dia, mas fez as contas e viu que não podia.
Na volta quis ir de metrô, mas os ônibus engarrafados sem aumento de salário o incomodaram mais uma vez.
Quando chegou em casa pensou em fugir.
Pena que já estava em casa.
Ia aproveitar pra comer salada: emagrecer.
E queria depois uma imensa sobremesa: prazer.
Comeu apenas um pacote de macarrão instantâneo e tomou uma com limão porque não tinha vinho.
Queria dormir cedo, mas tinha jogo na televisão.
Queria assistir tudo, mas adormeceu no intervalo.
Quando acordou com o filme da madrugada quis morrer, mas só dormiu.
Em seus sonhos ele quis tudo e conseguiu.
E logo acordou do pesadelo.
Queria esquecer de tudo, mas pensou na vida.
Queria desistir de tudo...
...desistiu!
A MORTE DE MARK CHAPMAN
Aquele dia foi um dia como outro qualquer. Quero dizer, com exceção do barulho todo que as pessoas faziam nas ruas, pouco antes da contagem regressiva na Times Square, as coisas pareciam absolutamente normais, a neve que acumulara-se na janela em nada diferia da neve que caíra no ano anterior, o ronco de Starsbolk, meu companheiro de turno, era o mesmo, incessante e terrível, até a musica que tocava no rádio continuava sendo a porcaria de sempre, aquele blá blá blá interminável de um raper qualquer metido a besta.
Acontece que, embora toda aquela agitação que precedia a virada do ano, toda aquela balburdia ao ritmo de temas natalinos e pacifistas, havia um ruído que me incomodava sobremaneira naquela noite. Vinha lá dos lados do corredor norte, onde as coisas normalmente eram um pouco mais silenciosas. Chequei as câmeras internas e nada encontrei de anormal, exceto é claro, pelos longos dedos de Kinsey fora da cela, Kinsey fora um bandidinho de aluguel nos tempos de mocidade, vangloriara-se de seus feitos passados, matou dois caras certa vez, em meados de 1970, até que foi pego, dirigindo bêbado à caminho de Chicago. Agora, entretanto, não passava de um velho com seus dedos enrugados, fitando o chão cinza da penitenciária. Voltei os olhos para Starsbolk, continuava dormindo, o ronco parecia ter diminuído um pouco, remexeu o corpo na cadeira, dizendo coisas ininteligíveis e tombou a cabeça como se sonhasse com alguma coisa agradável o bastante para que eu o acordasse. Fui até a máquina de café, aquele ruído parecia ainda maior, nem cheguei a tocar no copo, voltei para as câmeras, tudo normal do lado norte, leste, oeste, sul. Até que meus olhos deram para aquele quartinho, um minúsculo quartinho no final do corredor norte, era onde os faxineiros guardavam panos, baldes, vassouras, todas essas coisas. Tentei a comunicação pelo rádio, mas Altaman, o faxineiro, não respondia, provavelmente estivesse metido no almoxarifado, bêbado, escutando a algazarra que vinha das ruas. Como era véspera de ano novo e nessas épocas, por mais firme que um sujeito seja, é preciso reconhecer que somos invadidos por inexplicáveis sentimentos humanitários, resolvi não incomodar Altman, tampouco Starsbolk. Olhei novamente para a câmera que captava a porta do quarto-despensa, apanhei as chaves e me dirigi até lá. Nem é preciso dizer que à medida em que eu avançava, mais estridente se tornava aquele ruído, até que foi tomando forma, a forma de um zumbido muito alto e irritante, girei a maçaneta, abri a porta, o ruído continuava, dessa vez ainda mais alto, acendi a luz, olhei para todos os lados, nada encontrando, revirei aqueles baldes e panos todos, cogitei a possibilidade de estar enlouquecendo depois de tantos anos trabalhando com todo o tipo de maluco que se possa imaginar, revirei as vassouras, os rodos, o zumbido continuava, cada vez mais alto, até que por fim encontrei-o, perto do rodapé, atrás do encerador, mexia as anteninhas e parecia me encarar, peguei o inseticida e joguei uma vez, nada, continuava no mesmo lugar, zumbindo e me encarando, joguei outros dois jatos, tombou no segundo, ficou lá, esperneando e zumbindo, aquelas perninhas todas agitadas, não me encarava mais, parecia desesperado. Fiquei um tempo olhando, até que o barulho e a agitação das pernas e das antenas foi diminuindo, diminuindo. Então silenciou. Pisei em cima para ter certeza de que não voltaria a fazer barulho quando eu saísse. Uma gosma verde espirrou pelo chão. Era pequeno. Não maior do que um mosquito desses comuns. Voltei para a minha sala, Starsbolk que acordara a pouco, veio com dois copos de café. Fez o serviço? Ele perguntou. Fiz. Respondi. Vamos pedir umas pizzas, afinal é noite de ano novo. Chamamos Altman pelo rádio, nada. Deixa ele pra lá. Comentei. Os ponteiros na Times Square marcaram meia noite de 31 de dezembro de 2007. Ouvimos os fogos. Depois de um tempo tudo voltou ao normal. Inclusive a porcaria da musica que tocava no rádio.
Acontece que, embora toda aquela agitação que precedia a virada do ano, toda aquela balburdia ao ritmo de temas natalinos e pacifistas, havia um ruído que me incomodava sobremaneira naquela noite. Vinha lá dos lados do corredor norte, onde as coisas normalmente eram um pouco mais silenciosas. Chequei as câmeras internas e nada encontrei de anormal, exceto é claro, pelos longos dedos de Kinsey fora da cela, Kinsey fora um bandidinho de aluguel nos tempos de mocidade, vangloriara-se de seus feitos passados, matou dois caras certa vez, em meados de 1970, até que foi pego, dirigindo bêbado à caminho de Chicago. Agora, entretanto, não passava de um velho com seus dedos enrugados, fitando o chão cinza da penitenciária. Voltei os olhos para Starsbolk, continuava dormindo, o ronco parecia ter diminuído um pouco, remexeu o corpo na cadeira, dizendo coisas ininteligíveis e tombou a cabeça como se sonhasse com alguma coisa agradável o bastante para que eu o acordasse. Fui até a máquina de café, aquele ruído parecia ainda maior, nem cheguei a tocar no copo, voltei para as câmeras, tudo normal do lado norte, leste, oeste, sul. Até que meus olhos deram para aquele quartinho, um minúsculo quartinho no final do corredor norte, era onde os faxineiros guardavam panos, baldes, vassouras, todas essas coisas. Tentei a comunicação pelo rádio, mas Altaman, o faxineiro, não respondia, provavelmente estivesse metido no almoxarifado, bêbado, escutando a algazarra que vinha das ruas. Como era véspera de ano novo e nessas épocas, por mais firme que um sujeito seja, é preciso reconhecer que somos invadidos por inexplicáveis sentimentos humanitários, resolvi não incomodar Altman, tampouco Starsbolk. Olhei novamente para a câmera que captava a porta do quarto-despensa, apanhei as chaves e me dirigi até lá. Nem é preciso dizer que à medida em que eu avançava, mais estridente se tornava aquele ruído, até que foi tomando forma, a forma de um zumbido muito alto e irritante, girei a maçaneta, abri a porta, o ruído continuava, dessa vez ainda mais alto, acendi a luz, olhei para todos os lados, nada encontrando, revirei aqueles baldes e panos todos, cogitei a possibilidade de estar enlouquecendo depois de tantos anos trabalhando com todo o tipo de maluco que se possa imaginar, revirei as vassouras, os rodos, o zumbido continuava, cada vez mais alto, até que por fim encontrei-o, perto do rodapé, atrás do encerador, mexia as anteninhas e parecia me encarar, peguei o inseticida e joguei uma vez, nada, continuava no mesmo lugar, zumbindo e me encarando, joguei outros dois jatos, tombou no segundo, ficou lá, esperneando e zumbindo, aquelas perninhas todas agitadas, não me encarava mais, parecia desesperado. Fiquei um tempo olhando, até que o barulho e a agitação das pernas e das antenas foi diminuindo, diminuindo. Então silenciou. Pisei em cima para ter certeza de que não voltaria a fazer barulho quando eu saísse. Uma gosma verde espirrou pelo chão. Era pequeno. Não maior do que um mosquito desses comuns. Voltei para a minha sala, Starsbolk que acordara a pouco, veio com dois copos de café. Fez o serviço? Ele perguntou. Fiz. Respondi. Vamos pedir umas pizzas, afinal é noite de ano novo. Chamamos Altman pelo rádio, nada. Deixa ele pra lá. Comentei. Os ponteiros na Times Square marcaram meia noite de 31 de dezembro de 2007. Ouvimos os fogos. Depois de um tempo tudo voltou ao normal. Inclusive a porcaria da musica que tocava no rádio.
domingo, 1 de julho de 2007
Amplidão
Um continho de amor, porque assim como os discos precisam de canções de amor, os livros precisam de algumas dessas tais histórias. E, se um dia calhar de só haver a literatura na minha vida - vai saber -, fica mais fácil pagar as contas assim... eh eh eh! Bom, vamos ao conto, que é baseado numa música do grupo norueguês Jaga Jazzist, Oslo Skyline.

Amplidão
Ampla.
A paisagem que se vê pela janela do ônibus. Esta que nos leva a outros lugares, outros tempos. Uma viagem dentro da viagem que fazemos.
É mais agradável assim, quando percebemos o todo da natureza ao redor da estrada - de mãos dadas. Realmente estamos juntos. E não me culpo por querer que seja sempre assim.
Ternura...
Mas quem saberia, de verdade?
O horizonte, distante, mas disponível ao toque do olhar, mostra uma história que não se revela. Não o futuro imediato. Não o final da história, em que um de nós cede e cada qual segue um caminho diverso. Pela morte ou pela vida.
Preferiria simplesmente deixar de pensar nisto e simplesmente me ver homem em seus olhos, não importando o que antes chamei de verdade ou o que um dia eu possa vir a chamar, que se sinta mulher em meus braços enquanto trilhamos o caminho conhecido de tantos e inédito a nós.
O momento. Algo que não se explica.
Transbordamos.
Mesclamos-nos em nossa jornada. Com os céus e as montanhas. Mesmo os arranha-céus da cidade onde deveremos chegar estão plenos de nós e do que espalhamos. Enxergo além da janela do ônibus. Você é a minha paisagem. Ampla.

Amplidão
Ampla.
A paisagem que se vê pela janela do ônibus. Esta que nos leva a outros lugares, outros tempos. Uma viagem dentro da viagem que fazemos.
É mais agradável assim, quando percebemos o todo da natureza ao redor da estrada - de mãos dadas. Realmente estamos juntos. E não me culpo por querer que seja sempre assim.
Ternura...
Mas quem saberia, de verdade?
O horizonte, distante, mas disponível ao toque do olhar, mostra uma história que não se revela. Não o futuro imediato. Não o final da história, em que um de nós cede e cada qual segue um caminho diverso. Pela morte ou pela vida.
Preferiria simplesmente deixar de pensar nisto e simplesmente me ver homem em seus olhos, não importando o que antes chamei de verdade ou o que um dia eu possa vir a chamar, que se sinta mulher em meus braços enquanto trilhamos o caminho conhecido de tantos e inédito a nós.
O momento. Algo que não se explica.
Transbordamos.
Mesclamos-nos em nossa jornada. Com os céus e as montanhas. Mesmo os arranha-céus da cidade onde deveremos chegar estão plenos de nós e do que espalhamos. Enxergo além da janela do ônibus. Você é a minha paisagem. Ampla.
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