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sábado, 5 de abril de 2008

Sarau no El Cafofo, dia 11

Nada menos que uma noite daquelas, não?

Beijos e abraços, pessoal!

sexta-feira, 28 de março de 2008

Sendo

Sendo

já fui o ladrão a galope de seu deserto

já fui o grito na rua
o desespero de não saber pra onde ir
e a solução encontrada no último gole do copo

já fui a distorção da guitarra que já não toca

já fui o oásis que se desfaz à sua frente
a dor de ninguém

e também a risada presa na garganta

já fui o coro das igrejas
a mão que segurou a sua quando temia andar
já fui os olhos que guiavam
e a noite que teimava em prosseguir sendo


já fui sonho e acordei realidade fútil
o tempo perdido nos faróis de uma metrópole
o papo sem moreira nem bezerra
e já fui silva e de paula e alessandro

e permaneço de alguma forma

na vida de quem quer:
um vagabundo, um joão bobo,

um falsário, sedutor virgem do vazio

carrego em mim algumas verdades

todas as ficções e contradições
as bugigangas incompreensíveis do inconsciente

algum ódio, muito amor e um tanto mais de... teimosia

o que mais posso ser? e o que mais posso ter?

É, isto é tudo por esta noite. Beijos e abraços prophanos, meu povo!

O retorno do poeta gordinho

Tô voltando pra casa, povo. Tô voltando! :-)

sábado, 12 de janeiro de 2008

Das vaidades vadias

Pavo Muerto, de Goya.

Das Vaidades Vadias


o poeta está cansado
da política
da boa vizinhança
do bom-mocismo

de dizer amém
do façamos amor
do não à guerra
do tudo-em-paz

queimem os terços
desfaçam o sorriso falso
e cansado
da foto que não lhes traduz

assumam a angústia
o patético
da crise de meia-idade
dos seus 18, 30, 50 ânus

carreguem como bandeira
a solidão das convicções
abandonadas
em troca de aceitação

tudo cheira mal
perfume francês
avenidas bem-cuidadas
para o inglês ver

tragam os miseráveis
os assassinos às ruas
os viciados e as damas
mais sacanas e risonhas

vamos criar um hino
da doença entre as coxas
do fétido ar de bosta
das vaidades vadias

vamos, otimistas
vomitar aos pés
das árvores centenárias
e morrer cantando

uma canção de desconsolo
de pouco caso
de desumanidade
de medo do medo do medo do medo...

Beijos e abraços prop(h)anos!

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

"O livro" e outros textos, meus e não-meus

Humm... antes isso que a insônia... será?


O Livro

É nisto que o homem pensa, deitado em sua cama, virando as páginas do livro que não lê: a dinâmica dos dias, tudo sempre tão perto, tão longe.

Tudo tão rápido.

Aproximação e afastamento. O desejo daquela mão acariciando os cabelos, mas que não há mais no próximo momento. Ou há. Ou não se admite isto. O que acontece com estas pessoas?

Assim, há de passar desejo após desejo, cada vez menos intensos, cada vez menos belos. Porque há algo de belo em pessoas apaixonadas, assim como há algo de belo em pessoas tristes.

Tenebroso, este mundo. Cinza demais para quaisquer olhos. Só a metrópole, assassinando sonhos. Só a metrópole.

Só, o homem não percebe, mas já dorme. E com um movimento involuntário de mão, fecha o caderno em que escreverá seu próximo livro.

Bom, a verdade é que acordei cedo demais para o meu padrão recente. Não que eu devesse reclamar. A maioria das pessoas... bem, o comentário é dispensável e tudo que quero é ficar de bem com o dia.

Mas já que falei em insônia lááááá no comecinho do post, encontrei pela manhã essa breve lucubração do Sr. Ramón Alcântara:

Insônia Existencial

não dormi

e não acordei
de olhos abertos
meu pesadelo só eu sei

Então senti-me inclinado a respondê-lo e aconteceu isto:

acordar de um pesadelo a cada manhã
acordar para um pesadelo a cada...
acordar num pesadelo e ainda

ter poesia

quem me dera simplesmente bastasse!

Querem saber? Vou fazer o dia ser útil a mim.

E, sim, devo voltar aqui pra postar outros textos não-meus.

Beijos e abraços prophanos!

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

República do vazio lírico


República do Vazio Lírico

votam impostos

e as crianças têm de sair às ruas
vendem doces e salgados para poder comer
o pai não trabalha mais

o homem de terno e gravata tão empreendedor, tão orgulho-da-mamãe, não vê
nem mesmo eu (me) vejo, às vezes

há distribuição de presentes no morro
mais uns a distribuir balas em algum lugar

em qualquer lugar

ninguém com alma e
com tempo
para sentir a vida e
saber que pode ser diferente


carnaval, novela, futebol...
o transporte lotado, o sol na cabeça...
o sorriso sem dentes no eme-esse-ene
o breve flerte no barzinho
vão sortear a mega-sena
temo que meu amigo ganhe e acabe assassinado
pela esposa


lugares comuns...

lugar comum, minha queixa também
a poesia (contida aqui?) não vai mudar o mundo

e, pelo meu, já fez o que pôde
mas no final, nada sobra

talvez as palavras perdidas em folhas amarelas
ou lugares que ninguém visita

um limiar nos alcança
a barreira do suportável já é bem clara


quem enxerga?

a terra será vermelha mais uma vez
e ninguém poderá chorar
porque o que poderia ter sido feito
não foi

este é o nosso lugar
de belezas descomunais

de todas as cores do arco-íris

esta é a nossa bandeira
a ser hasteada a meio-pau

esta é a nossa república do vazio lírico


Beijos e abraços prophanos ao povo brasileiro!

sexta-feira, 30 de novembro de 2007

Ele sonhava

Um breve conto com sabor de poesia, ou uma breve poesia com cara de prosa. De guitarras imaginárias.


Ele Sonhava

Pegou sua guitarra e fez o som de sua vida.


Pegou a guitarra e fez o som. E foi agressivo, ao modo de seus ídolos de capa de revista.

Foi o tal.

Num palco de brinquedo para um público de sonho. Lotou estádios, vendeu discos. Os outros meninos, que vieram depois, copiaram-no.

E repassavam os mp3 entre si.


Depois, era ele mesmo nas capas de revista e nos sites descolados.

O tempo passou e ele virou lenda. Mas não sabia um fá...


Ele sonhava!


Beijos e abraços prophanos!

Baseado neste som aqui:

Megadeth - Train of Consequences


Nossa, fazia tempo que não escutava isso... eh eh eh!

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

No contenido

É, pessoal... o cotidiano, este cotidiano... pra quem será?



No Contenido

temor de deixar de ser quem é
a aproximação do lugar comum
do deixar-se levar pela mão
a armadilha pronta
quando cessa a última força


a última?

não, não permitirá

há muitas cores para apenas um pacote de 100 gramas
sons demais para somente um litro
e sensações que não devem escoar pia abaixo

Ufa... fazia tempo, não?

Bom, logo voltarei com mais! Beijos e abraços prophanos!

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

Promessa

Porque a busca prossegue. Porque o risco também. Gostaria que encontrassem um fragmento de vida nesta poesia...


Promessa

todos os sentidos
na avenida
as sensações
despertadas

e esquecidas
no outro momento


há vida

no andar daquela mulher
na fumaça que sai
da xícara de café
no riso adolescente
que se desfaz
antes de se tornar adulto

no ruído dos aviões
que voam para longe
qualquer lugar
no canto dos pássaros
presos em gaiolas
um novo mar
um novo onde
e o desejo existe

ouço todos os novos sons
em velhas notas
estancado
como se fosse morte
não é verdade
onde há você
haverá vida?
haverá alguém?

por fim, o gole na cerveja
a volta ao lar
alguma conversa sobre contas
e as roupas sujas
que não sei onde jogar
noutro dia
haverá... vida


Não sei se encontraram fragmento algum de vida aqui, mas encontrem beijos e abraços prophanos!

Defective Smile

FIZ LIMPEZA NOS DENTES.


ESTOU SATISFEITO COM MEU SORRISO LIMPO, MAS AINDA DEFEITUOSO.

MEU NOME?

VOCÊ NÃO ADIVINHA MEU NOME...



Ah, não... isso é só a poesia do instante. Se é que é poesia.

Beijos e abraços prophanos!

terça-feira, 11 de setembro de 2007

Olhos de Holly Golightly

Hoje, vai um poeminha doce para encharcar olhos de donzelas...

Tá, vamos falar sério! Pensei que Scarlett O'Hara já foi imaginada nas minhas linhas, então não seria ruim imaginar uma Holly Golightly, personagem de Audrey Hepburn em Bonequinha de Luxo (Breakfast at Tiffany's). Aí vai:


Olhos de Holly Golightly

ela vem com seus olhos de diva das telas
ela vem e ele a vê... passar
o que resta é
a sensação de perder o que não se ganhou
tudo o que ele quis, beber da fonte daquele olhar.

ela fala com a voz que sai de sua boca
ela fala e ele escuta... se cala
sabe a razão
são as ciladas nascidas de sua fantasia
num instante imaginou viver dos beijos que se vão.

ela se vai com suas pernas, colo, sexo
ele a despe devagar... sem tocar
as mãos tremem
e nunca alcançam a pele que se desfaz no ar
quase esquece que queria guardar aqueles seios.

já deixou de existir, a miragem em sua memória
e enquanto era nem reparou no rapaz
que viu em seus olhos
os olhos de uma diva de cinema
os olhos de Holly Golightly.

Beijos prophanos e abraços mundanos!

segunda-feira, 27 de agosto de 2007

Trilogia do Medo - 3. Lucky

Porque tudo tem um fim. Desde os períodos em que nos sentimos por alguma razão seguros até uma breve série temática de poesias.

Lucky

aquele é um garoto de sorte.

os dramas sempre desviam dele.





medo?

é uma palavra que não conhece.





a confiança o acompanha.

até quando?

Como saber? Não é possível. Apenas sei que voltarei aqui com algo novo pra contar a vocês, qualquer hora dessas. Beijos e abraços prophanos!

sábado, 25 de agosto de 2007

Trilogia do Medo - 2. Travesti

O simulacro... a busca por ser o que não se pode ser, então o que temos aqui é o...


Travesti

all is rock. and roll.
todas as mulheres
e as drogas.



é o tempo de esvaziar-se
para preencher-se.



os tempos são hard. core.
sólidos apenas os obstáculos que, por covardia, você não quer ver
tudo o que você não queria.


traveste-se de alegria.


amanhã

é outro dia...


Beijos e abraços prophanos!

Trilogia do Medo - 1. Suas Raízes

Vocês já tiveram medo. É o limiar entre o atirar-se ou o voltar atrás. Entre o ser e anular-se. Eu já tive medo e muitas vezes este amigo/inimigo íntimo me visita. Se há algo a matar, este algo é o medo.
E hoje apresento a vocês primeira e segunda partes de minha trilogia de breves poesias sobre o tema.


Suas Raízes

você precisa
precisa
ter os pés
no chão


encara seu medo!

a montanha-russa...




- ok, vamos!


a altura... faz tremer...




















agora você pode morrer feliz...

e livre!

Beijos e abraços prophanos!

Nietzsche, Schopenhauer, Sistemas, a Imprensa Vampírica e Sair pra Ver o Sol

Sobre nós e eles. E com toques de Pink Floyd.

Nietzsche, Schopenhauer, Sistemas,
a Imprensa Vampírica e Sair pra Ver o Sol

Os temas da conversa, da manhã, de algumas vidas.

Dois velhos jovens e letrados amigos conversam no Metrô. Já conformados com o fato de que nada vai mudar. Conformados com a natureza. A humana.

Um capta idéias para um futuro texto. Este. Já não é mais futuro, então.

Eles provocam. Eles sabem.

Não muito distante, uma chiquita hermosa fita um, fita outro. Sol forte de verão em pleno inverno. Eles devolvem com discrição o fitar, apesar que um fixa-se mais. Nenhuma palavra sobre, mas também todas as palavras são pra eles. Pra ela – um pouco.

Talvez uma estudante de História ou Serviço Social. Ou uma consumidora de programas de TV para a massa embrutecida. Ou tudo ao mesmo tempo num pacote aprazível aos olhos.

Despercebem ou não querem perceber o senhor que se põe ao lado. Ele ouve e fita também. Sol repleto de verão no murcho inverno, patriótico inverno. Porque sabe que aquele povo é feito pelo e para o sol. Um deles, um dos velhos jovens e letrados amigos, desce.

O que fica pergunta ao senhor, finalmente desfingindo: “Quer sentar-se?” Diz-que-não. Está vivo. Isto é para quem trabalha. Atravessa a cidade pra ver o neto. O universo contraído fica entre Itaquera e Aclimação. Duas solidões já se juntarão e serão nenhuma. Está vivo. Chega sua estação.

Sai pra ver o sol.

Beijos e abraços prophanos a todos!

Us and them

domingo, 1 de julho de 2007

Amplidão

Um continho de amor, porque assim como os discos precisam de canções de amor, os livros precisam de algumas dessas tais histórias. E, se um dia calhar de só haver a literatura na minha vida - vai saber -, fica mais fácil pagar as contas assim... eh eh eh! Bom, vamos ao conto, que é baseado numa música do grupo norueguês Jaga Jazzist, Oslo Skyline.


Amplidão

Ampla.

A paisagem que se vê pela janela do ônibus. Esta que nos leva a outros lugares, outros tempos. Uma viagem dentro da viagem que fazemos.

É mais agradável assim, quando percebemos o todo da natureza ao redor da estrada - de mãos dadas. Realmente estamos juntos. E não me culpo por querer que seja sempre assim.

Ternura...

Mas quem saberia, de verdade?

O horizonte, distante, mas disponível ao toque do olhar, mostra uma história que não se revela. Não o futuro imediato. Não o final da história, em que um de nós cede e cada qual segue um caminho diverso. Pela morte ou pela vida.

Preferiria simplesmente deixar de pensar nisto e simplesmente me ver homem em seus olhos, não importando o que antes chamei de verdade ou o que um dia eu possa vir a chamar, que se sinta mulher em meus braços enquanto trilhamos o caminho conhecido de tantos e inédito a nós.

O momento. Algo que não se explica.

Transbordamos.

Mesclamos-nos em nossa jornada. Com os céus e as montanhas. Mesmo os arranha-céus da cidade onde deveremos chegar estão plenos de nós e do que espalhamos. Enxergo além da janela do ônibus. Você é a minha paisagem. Ampla.


quinta-feira, 28 de junho de 2007

A minha música

Esta é a história de um amigo. Ele existe. A mãe, esquecida, não o buscava na escola. Ele ficava ali no portão, sozinho. Quase ninguém prestando atenção à sua solidão, até que...


A Minha Música

Ei, quem é você? Porque me olha com essa cara de dó? Nunca viu um cara triste sentado na calçada? O que você quer saber de mim? Quer saber quem eu sou, né?

Pois eu digo.


Sou o que sou, o que fui e serei.

É que eu choro, ontem criança, na porta da escola. Hoje eles me esquecerão outra vez.
- O que foi, menino?
- Mamãe... ela não v-veio me buscar...
Bom que eu aprendo sozinho o caminho. Mas carinho, amparo, proteção... nada disso é demais quando se é pequeno.

Uma vez eu me olhei no espelho e me vi grande, 20 anos, com minha sombra cantando aquela música. E olhando de novo, com 20 anos, enxergando o garoto de seis no espelho, verei que você me abandonava, me esquecia mais uma vez. Só que você já será outra pessoa.

Eu sou o que sou, o que fui e serei. Tudo ao mesmo tempo. Porque não muda. Porque carregarei comigo a dor que não pude negar.

E vivi marcado por isso.


Mas eu marquei o caminho de volta. Não precisarei mais do amparo dos que deviam me amar, na verdade, tão ausentes. Sou gente grande e posso mudar tudo. E se no fim nada der certo,
ao menos o menino continuou a ter sua música.

Então eu também o vejo, fazendo o velho caminho da escola para a casa. São outros tempos - ele canta a música, baixinho, para si mesmo (é, o personagem recorrente!)...

sábado, 23 de junho de 2007

Talvez e certeza


Talvez e Certeza

Noutro tempo, o primeiro... a casualidade de ter estado no lugar onde aquelas pessoas estiveram... elas buscando respostas, ele as carregando na mochila - ainda que não fossem as respostas definitivas. Ou eram o erro absoluto?

Não sabe muito bem o porquê. No sofá da sala onde existe o aniversário da amiga, um universo de pensamentos o atordoa, junto àquelas amáveis pessoas tão mais cheias de vitalidade que ele - afinal, há o violão, a música e a vontade de comemorar. Gosta de estar, mas o ritmo é outro.

Interno. Canta baixinho, repetindo a canção e oferecendo-a aos próprios ouvidos, no exercício de re-buscar-se ali, refletindo na letra da música, puro cristal.

O exercício é também tentativa de eliminar a interrogação do texto que o martela na mente a cada dia. Começar a envelhecer não é do jeito que pensava. Percebe o risco. Um começo de fim por adaptar-se às regras do jogo? O que importa menos, quando se sabe que é possível sabotar o regulamento. Se seguir o caminho certo, está bom. Mas... quão bom pode estar? E que caminho, afinal?

Por isso, anda com os mais jovens e de espírito contestador. Os que ainda não são massa sem reação e reacionária. Os que estão nos coletivos, como quaisquer outros, mas que não exibem a face sem expressão, como a maioria. Os que não têm as respostas, mas que têm em seus olhares o brilho do puro cristal. "Então, que busquemos juntos", pensa. Assim, não lhe parece que o mundo possa ir tão mal.

Talvez a busca não esteja sendo feita da forma correta - e ele já não é mais tão jovem para erros. Ou talvez seja um vampiro involuntário da juventude alheia, sugando sem se dar conta a energia de quem está ao redor.

Seja qual for o talvez que se tornará certeza, se é que haverá a certeza, ele gosta de estar ali, com aquelas pessoas, os ditos amigos. São poucos, mas bons.

Texto com base em:

terça-feira, 12 de junho de 2007

A música, outro ritmo

Depois de pensar em Oração ao Tempo, do Caetano. Depois de pensar em Dalí, enquanto o tempo se desfazia...


A Música, Outro Ritmo

Saudade do tempo em que o tempo não precisava ser conquistado. Simplesmente estava lá, para nós.

Era uma quimera...

É que sempre há o momento em que ele se rebela - ou será a vida? Sim, a vida é que se torna outra e fazemos qualquer coisa com o tempo, sem percebermos. E ele vai embora, sem percebermos.
O tempo que volta. O tempo dos apaixonados, dos que querem mudar o mundo.
Houve um tempo, Miriam, em que o poeta escrevia pra você, mas jamais mostrava. Você não pode se lembrar, porque só agora eu lhe digo.

Quando percebe, você se assusta. Vejo agora em sua fisionomia. Vi anos atrás, também. Você me faz querer rezar. Mas é justamente o que não faço. Posso, no máximo, desejar sem esforço que o tempo se torne novamente seu aliado. Apenas isto, porque, de qualquer forma, o tempo me mata. E é melhor o desejo sem esforço porque qualquer esforço é inglório.

É, com o passar dos anos... eu comecei a duvidar de sua relação com o tempo. E a dúvida cresceu até virar certeza do fracasso. Esta é a verdade.

Eu nem sei porque falo. Tudo continua como antes: ouvíamos a mesma música, mas não marcávamos o mesmo ritmo, com os pés.

O poeta, meu bem, aquele poeta que escreveu pra você... está morto. Eu o matei anos atrás, mas você não soube de nada. Matei-o da forma mais óbvia, sabendo que você não poderia saber. Fiquei ao seu lado, e isto você sabe bem.
O tempo que trai. O tempo do último leito... haverá a chance de dizer adeus?
Não podemos caminhar juntos agora, por causa de nossos ritmos, que são outros para cada um. Não somos capazes de dobrar o deus inflexível e caprichoso aos olhos de quem não entende. Mas ele... ele, sim, nos junta ou nos afasta. E mudar isto, ah... mudar isto...

Como, se não conseguimos entender a nós mesmos?




segunda-feira, 4 de junho de 2007

A vida que começa

Breve história que Sargento Pimenta já contou, versão 2007.


Primeiro dia de 2007. Acordo quando todos acabam de ir para a cama. “Indisposição”, disse, sem pensar na desfeita a parentes e amigos. Algum comprimido e não me dei conta dos fogos, a não ser por aqueles do mundo dos sonhos que poderia percorrer.

Tenho a chave do carro sobre a escrivaninha e a mochila arrumada em silêncio no dia anterior. Uma música quarentona toca em minha mente. Sempre dizem que devemos começar um ano de forma diferente. Então pensei: “desta vez, vai.”

Antes de sair do quarto os músculos param. Esforço além do humano, mas sigo. Levanto sorrateira e confirmo: ninguém acordado. Melhor, pois olhar para o rosto de mamãe me faria desistir. Bilhete passando pelo vão da porta. O que sonham esses dois que deixo?

Saio e o sol do primeiro dia da vida é lindo. Sorrio.

E vou.

Música aqui: